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domingo, 4 de abril de 2010

Palhinha da sexta passada - dia 02/04/2010

EU VOU CHAMAR O SÍNDICO
Leandro Muniz


Início de uma espécie de reunião. Síndico está de pé. Cerca de 8 pessoas estão sentadas esperando Síndico falar (Figurantes moradores). Síndico é um homem tosco, mal vestido, feio, sujo, sempre suando embaixo do braço e na testa, que enxuga constantemente com um lenço. Jussara e Juliana são mulheres bonitas, elegantes, arrumadas.

SÍNDICO
Boa noite a todos. Bem, o albatroz-errante ou albatroz-gigante é uma ave da família Diomedeidae, que habita a maior parte do oceano austral, nas margens do gelo que circundam a Antártica e, ocasionalmente até mais ao norte, com alguns registros fora da Califórnia e no Atlântico Norte. Durante o inverno, a maior parte das aves se concentra ao norte da Convergência Antártica. (pequena pausa) Bem, essa reunião não tem nada a ver com isso. Podemos começar?

UM DOS FIGURANTES
Com licença. Vai ter algum lanche hoje?

SÍNDICO
Não.

6 figurantes levantam- se e saem de cena. Juliana, Jussara e Síndico, olham para eles, e acompanham suas saídas em silêncio.

SÍNDICO( fala pra si)
Esse albatroz me intriga...
JULIANA
É bom mesmo que essa reunião seja para poucos, visto que temos muitas coisas para resolver, não concorda seu Vitório?
SÍNDICO (gagueja)
Bom... Eu...
JUSSARA
Concordo inteiramente com essa desclassificada, inclusive já estou no meu limite, e quero uma posição sua seu Vitório.


JULIANA
Meu Deus, mas será que não bastou o que essa infeliz escreveu a meu respeito no livro dos condôminos seu Vitório?
JUSSARA
Seu Vitório, fala pra essa mulher que se ela me ofender novamente eu não respondo pelos meus atos seu Vitório?
JULIANA
Seu Vitório, diz pra essa “esculhambada porteira dos infernos” que se ela cruzar o meu caminho novamente vai ter agressão seu Vitório?
JUSSARA (rindo)
Ah, seu Vitório, por favor, responda a essa “pilantra salafrária vigarista”, que aquele maridinho cafajeste dela, só não quer comer o senhor seu Vitório!
JULIANA
Seu Vitório, como é chato a inveja de uma mulher enlouquecida pelas falcatruas da mãe, e o divórcio traumático com o marido alcoólatra, né não seu Vitório?
SÍNDICO
Olha... Eu...
JUSSARA
Melhor um ex- marido alcoólatra e uma mãe ladra, a ser enganada!
JULIANA
Melhor ser enganada do que ser abandonada!
JUSSARA
Melhor calar essa matraca antes que eu cuspa na sua caroça!
JULIANA
Melhor receber uma cusparada do que ter os olhos rasgados pelas minhas unhas!
JUSSARA
Melhor ser cega a ter que conviver com uma vizinha que tem um zoológico em casa!
JULIANA
Idiota!
JUSSARA
Inútil!
JULIANA
Vaca!
JUSSARA
Calhorda!
JULIANA
Vadia, estelionatária, maconheira, piriguete criminosa!
JUSSARA
Piranha de esgoto!
JULIANA
Piranha de esgoto?
SÍNDICO
Eu...Olha...
JUSSARA
Seu Vitório, não responda a essa mulher demente, que não sabe o que fazer com tantos cachorros, sem contarmos as crianças demoníacas que ela pariu, seu Vitório seu Vitório...


JULIANA (faz-se de santa)
Seu Vitório, não... Eu não vou entrar no jogo desta senhora. Acredito que podemos resolver as coisas com mais elegância.
JUSSARA ( faz a santa também)
Seu Vitório, o senhor me conhece, eu jamais me meti em qualquer confusão e já moro aqui há 9 anos seu...
JULIANA
Vitório, não dê ouvidos a essa mulher suja que se insinua como uma rampeira!
JUSSARA
Seu Vitório, se eu fosse o senhor, já tinha dado na cara dessa mulher, ela está te provocando seu Vitório!
SÍNDICO
Mas...
JULIANA (alegremente cínica, como se fosse contar algo muito curioso)
Seu Vitório, você não sabe o que aconteceu hoje. Entrei com uma ação na justiça contra essa mulher por calúnia, difamação e danos morais...
JUSSARA
Seu Vitório, você não sabe o que aconteceu hoje. Adivinha com o marido de quem eu transei duas vezes num motel sujo e barato, e foi uma delícia seu Vitório?
JULIANA ( ameaçando)
Seu Vitório, adivinha o que eu trouxe na bolsa, sabendo que podia ter um barraco aqui?
JUSSARA
Seu Vitório, te contei que tenho uns contatos fortes na Vila Cruzeiro?
JULIANA
Te contei que tenho porte de armas?
JUSSARA
Te contei que meu primo já estuprou uma menor?


Silêncio.


SÍNDICO
Bem, não sei o que dizer depois de tantas informações. Mal consigo imaginar como essa história vai acabar. Os albatrozes costumam se isolar, e só voltam a freqüentar lugares ocupados por outros da espécie quando as geleiras...

Juliana tira uma arma da bolsa e ameaça Síndico, que se cala.

SÍNDICO
Eu estou te chateando?

JULIANA (mãos trêmulas segurando a arma, fala manso, mas bastante alterada)
Seu Vitório, fala pra essa mulher que se ela não sair do prédio hoje, pode se considerar... Pode não se considerar mais... Seu Vitório...
SÍNDICO (para Jussara)
Ela disse que...


JUSSARA (com medo, emocionada, quase chora)
Sim, eu não sou surda seu Vitório. Pergunte pra essa senhora, se ela sabe que se eu for embora agora, vou levá-lo comigo, seu Vitório...
SÍNDICO ( para Juliana)
Ela tá perguntando se...
JULIANA
Eu ouvi. Eu ouvi muito bem. Diga a ela, que sei de tudo... E que se apresse, antes que eu mude de idéia e mate os dois, sua piranha...Desculpe, seu Vitório...
JUSSARA
Obrigada.


Jussara corre, e sai de cena.

JULIANA (chorosa, perdendo a força, quase ofegante)
Hoje de manhã seu Vitório... Ele já estava, seu Vitório... Com as malas prontas...


Juliana larga a arma e começa a chorar, soluçante. Abraça o Síndico.


Fim.

Vídeo da cena

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“Vip” - de Jô Bilac
Mendigo
Marielle Moom
(Marielle Moom  saindo de uma festa badaladíssima)
Marielle: ( taça de prosecco na mão,  casaco de luxo. Acorda o mendigo que dorme no chão. ) Oi querido. Olá. Oi. Querido. (insiste, mas o mendigo ainda dorme e não quer papo) Oi. Meu anjo. Queridinho. Oi. Acorda. Meu anjo. Acorda, querido. Oi. Ei. Olá. Opa. Acorda.
Mendigo: (levanta sonolento) Desculpa madame, eu dormi na vaga do carro da senhora, né? Já to saindo, é que a marquise estava cheia e...
Marielle: (simpática)  Não, não, não... Não se incomode, imagina!
Mendigo: Eu saio, madame, não tem problema. A senhora pode estacionar o carro aqui, eu vou pra ali debaixo do viaduto e...
Marielle: Não, que viaduto, o que? O senhor pode dormir tranquilamente na vaga do meu carro. Por favor.
Mendigo: Eu não quero causar incômodos...
Marielle: Eu faço questão! Não é incomodo algum, fica a vontade. 
(Marielle, débil, parada, sorrindo para o mendigo)
Mendigo: Então...?
Marielle: O que?
Mendigo: A madame vai ficar aí parada rindo pra mim?
Marielle: Madame? Não! Vamos evitar formalidades! Marielle Moom.
Mendigo: Como..? Marie...O que?
Marielle: (como se tivesse falando com um retardado)  Ma-ri-e-lle...
Mendigo: Ma-ri-e-lle...
Marielle: Moom...
Mendigo: Muuu.
Marielle: Moom.
Mendigo: Muuu.
Marielle: (desiste) Enfim. Qual é o seu nome, querido?
Mendigo: Mendigo mesmo.
Marielle: Prazer, Mendigo Mesmo. Bom. Eu vou direto ao assunto, sem mais rodeios. Eu acabo de voltar de uma festa badaladérrima, creme de La creme, papa finérrima, coisa que você nunca vai ver! Enfim. Daí, quando vou estacionar o meu porche, vejo você aqui, dormindo ao relento, sem a mínima dignidade, mas em profunda paz e isso me tocou. De verdade. Fiquei comovida. Pensei nesse mundo louco que  gente vive, sabe? Essa coisa louca, de muitos que não tem nada e poucos que tem tudo. E daí fiquei pensando na Madre Teresa, no Mandela. Mandela é um cara que me emociona até hoje. Um cara fora de série. A história de vida do Mandela. Eu não posso nem falar no Mandela que eu fico com olho cheio d’água, emocionada mesmo. E daí fiquei pensando: caramba, Marielle! O que você está fazendo da sua vida? Cara, o Mandela na sua idade já...
Mendigo: Desculpa interromper, madame, é que eu...realmente, estou muito cansado, amanhã pego logo cedo no lixão e...
Marielle: No lixão! Que coisa linda! Lixão! O chorume do lixão! É o povo brasileiro que não se cansa e nem desiste, dessa gente que balança e que...
Mendigo: Madame, desculpa mesmo, mas realmente.
Marielle: Ai, perdão! Eu aqui falando feito matraca. Louca! (ri)
Mendigo: Então?
Marielle: Então que eu queria te dar uma esmola.
Mendigo: Uma esmola.
Marielle: É. Uma esmola. Algo simbólico. (abrindo a bolsa, assinando um cheque) Nada demais, um mimo! 3 mil, está bom?
Mendigo:  Não.
Marielle: Não está bom? Quer mais? Tudo bem, 4 mil.
Mendigo: (digno) Não, obrigado. Eu não quero.
Marielle: Como assim?
Mendigo: Não me leve a mal, mas eu não estou precisando. Obrigado.
Marielle: O que foi? Achou 4 mil pouco?
Mendigo: Imagina, madame. Eu é que não quero mesmo. Obrigado, viu.
Marielle: Você sabe meso jogar, rapaz. Tudo bem, 5 mil.
Mendigo: Não madame. Obrigado.  Muito mesmo. Boa noite.
Marielle: O que há? Você não é mendigo? Não passa fome? Não passa frio? Então, esse dinheiro vai te ajudar. É de coração, eu sou rica, eu posso te dar, não vai me fazer falta.
Mendigo:  Eu gosto de passar fome, de passar frio. Eu gosto.
Marielle: E o velho barreiro? E a cola de sapateiro? E o crac? Como é que vai comprar? Hein? Aceita, vai! Não custa nada! Aceita!
Mendigo: Não quero.
Marielle: Já sei. Dinheiro não te interessa, não é? Você é ambicioso rapaz! Gostei de você!  Você tem fibra! Quer jóia, não é? Eu te dou as minhas jóias! (tirando os brincos, relógio, etc e jogando pro mendigo) Leva as minhas jóias! Toma! É ouro! Tem brilhante! Tudo seu!
Mendigo: Não quero... Eu só quero dormir, madame!      
Marielle: Meu dinheiro não é bom o bastante pra você? As minhas jóias? Eu não sou digna o suficiente? É isso? Não estou a sua altura?
Mendigo: (tranqüilo) Não,  não é nada disso. Olha, você é ótima, eu é que estou noutra fase. Eu quero dar um tempo, repensar meus valores, saber se é realmente isso que eu quero. Me entende?
Marielle:  Você tem outra? É isso? Pode falar. É outra madame que te dá esmolas melhores, não é? Fala!
Mendigo: Não tem outra madame...
Marielle: Então é o que? O meu porche! Você quer o meu porche, não é ?   É isso que você quer, desde o inicio. Faz parte do seu jogo!
Mendigo: Jogo?
 Marielle: Sim! Isso é um jogo !
Mendigo: Não tem jogo algum, madame.
Marielle: Se pensa que pode me jogar pra escanteio está muito enganado! (saca um revólver da bolsa)
Mendigo: (apavorado) O que é isso, madame?
Marielle: Um assalto ao contrê!
Mendigo:  Um assalto o que?
Marielle: Ao estilo francês, ao contrê!
Mendigo: Calma, a madame está alterada...
Marielle:  (falando como marginal) Perdeu, maluco! Perdeu! Pega a minha bolsa, bora! Pega ! Bora! Quer levar pipoco? Então, meu irmão, pega a bolsa!  Bora!
Mendigo: (pegando a bolsa, amedrontado)
Marielle: Isso... Agora o bracelete! Bora! Pega o bracelete, isso, coloca no bolso, no bolso! Os brincos, agora! Bora! Não banque o engraçadinho ou eu estouro os seus miolos!
Mendigo: Calma, madame...calma!
Marielle: Bora! Bora! A chave! (joga a chave) Pega a chave!
Mendigo: Peguei, pronto, calma.
Marielle: Agora vai lá e pega o porche e sai varado! Bora, rapá! Bora!
Mendigo: Mas eu nem sei dirigir, madame!
Marielle: Se adianta, meu irmão! Se adianta! Bora! Pega o carro! Bora!
Mendigo: To indo, to indo! (saindo com a chave)
Marielle: (feliz, satisfeita) Mandela... Tá vendo? Se cada um fizer a sua parte, esse país vai pra frente!
Fim.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Palhinha da segunda semana do Clube da Cena - dia 12/03/2010


 A nova mulher - de Cristina Fagundes

Música tocando.  Casal sentado num sofá de uma sala se beijando e se agarrando.  Começam a tirar a roupa.  (é importante que a personagem feminina seja delicada e suave e não uma putona, senão não tem graça). 

RICK: Ah, vem cá delícia, vamos fazer um sexozinho gostoso, vamos?
NANDA: Pô, mas é a primeira vez que a gente sai, você não acha que pega mal?
RICK: Não  ué, que que tem?
NANDA: Ah, sei lá é que tem homem que acha que dá de primeira é coisa de piranha. (TEMPO) Você acha isso?
RICK: Não, claro que não, a gente é adulto, qual o problema?
NANDA: Ai, que bom, que eu sempre dou de primeira. Como diz minha mãe: foda adiada é foda perdida!
RICK: (RI SEM GRAÇA) ah, é?  Sua mãe fala isso?
NANDA:  Fala. Minha mãe é muito sábia, sabe?  Ela me dá muitos conselhos de vida.  
RICK: Que engraçado. 
NANDA: Mãe tem essa coisa de cuidá né? Toda mãe é assim.  A mamãe sempre coloca uma camisinha nova na minha bolsa, quer ver? (procura) olha aqui.  Num falei. Ela é tão boazinha, ela fica preocupada, olha só,  é daquela resistente, boa pra fazer sexo anal, ó! Tá vendo, minha mãe me conhece.
RICK: Como assim?
NANDA: Ah, ela sabia que eu vou fazer anal  com você.
RICK: Fazer sexo anal comigo?  Olha! (ri sem graça) Mas como é que a sua mãe podia saber disso? A gente nem falou nisso.
NANDA: Ah porque ela  é esperta. Ou então porque eu sempre faço isso de primeira.
RICK: ah é?... que coisa...
NANDA (PENSATIVA): Ou então deve ser porque ás vezes eu filmo e mando pra ela.
RICK: Você filma o quê?
NANDA: Ah, eu filmo o sexo em si. O todo. E uns closes também.  Eu pego as dobrinhas sabe? Eu acho bonito.  Tô até pensando em fazer uma exposição “Genitálias Cariocas”.  Já tenho muito material.  Eu coloco no youtube você quer ver?
RICK: Sua mãe vê esses vídeos?
NANDA: Vê ué, todo mundo vê, ta lá no pornotube! É só botar Fernanda molhada. Quer ver? 
RICK: Não. Peraí. Você não acha estranho a sua mãe ficar vendo esses seus vídeos?
NANDA: Estranho? Não. Acho normal, toda mãe quer saber o que que a filha anda fazendo ué.  E eu tenho estudado muito, eu to estudando pra concurso sabe? Daí eu nunca paro em casa aí eu resolvi filmar meus encontros pra ela poder me ver quando sentir saudade.  Minha mãe é muito sozinha.
RICK: Ela é casada?
NANDA: Não.  Ela  tem uma historinhas lá com o porteiro mas é só sexo.
RICK: Ela sai com o porteiro?
NANDA: De vez em quando.
RICK: E ela acha isso bom?
NANDA: Ah, deve ser ótimo, porque o Juarez! Nossa! Muito bem dotado.
RICK: Como assim? Você já transou com o Juarez?
NANDA: Ah, não, mas o Juarez é muito bem dotado! Ele usa um uniforme justo que eu fico louca, que isso. É que eu ainda não tive uma chance mas quando eu pegar o Juarez de jeito...
RICK: Não vai ficar estranho depois não?
NANDA: Depois?
RICK: É. Se você sair com esse Juarez depois como é que vai ser? Você vai chegar em casa e dar de cara com ele na portaria, todo dia?
NANDA: Não . Vai ter vezes que eu vou chegar e ele vai ta com a minha mãe lá em casa. Eles andam transando muito.  O Juarez parece um coelho! Tem que ver!
RICK: E você não se sente invadida com ele na tua casa?
NANDA: Ah, eu ando tão  ocupada com o concurso, eu quero ser juíza sabe? Então eu nem ouço nada.  E eu sou muito concentrada.  Eu só acho chato quando a Carmem entra na jogada.
RICK: Carmem?
NANDA: É, a empregada.  Ela grita muito,é  espanhola.  E aí quando a mamãe chama a Carmem pra participar fica difícil mesmo.  Aí eu confesso que me atrapalha sim.  Semana passada eu falei pra Carmem: Carmen eu não quero mais que você fique com a minha mãe quando ela já estiver com o Juarez, falei mesmo, porque senão vira bagunça sabe? Eu preciso estudar.
RICK: Sei. E essa Carmen, ela te obedece?
NANDA: Só na cama.  Porque na mesa ela não me traz uma torrada.  E vai pedir pra ela fritar um ovo?  Não frita. Ela disse que ovo não é função dela.
RICK: Você não acha devia arrumar uma outra empregada, diante do que anda acontecendo?
NANDA: Acho, acho sim.  Acho um absurdo esse comportamento. A Carmen não pode ficar sem fritar ovo  e achar que é normal isso. Eu adoro ovo! Tem que superar essa aversão a ovo., gente! Mas deixa, deixa que a minha tia ta mandando uma menina lá do Norte que ela disse que é ótima! Cozinha que é uma maravilha e ainda faz um sexo oral fantástico.  Ate minha avó elogiou.  E olha que a minha avó é dificílima, não gosta de nada. 
RICK: A sua avó...
NANDA: Minha avó é uma santa! Graças a Deus que eu tenho ela na minha vida! È muito sábia a vovó, não sei o que seria de mim sem ela.  Vive me dando presente, olha só isso aqui que mimo.
RICK: que isso?
NANDA: Tesão de vaca.  Não  é incrível? Eu achei que nem existia mais! Tem coisa que só avó pra descobrir para gente!  Sua avó também deve ser assim né?  E eu servi um pouco disso no chá de panela da minha irmã, outro dia, ih, foi um arraso,  você tinha que ver!  A gente se divertiu tanto!  Ai, que loucura! Aqui, ó (mostra uma marcas de unha na barriga) o que a minha prima me fez.  Ai, ai, to acabada até hoje! Ai, ainda bem que a vovô me mandou esse hipoglós junto!  Minha avó pensa em tudo!
RICK:  Escuta, ta ficando tarde, acho que eu já vou indo...
NANDA: Ah, mas já? Sem nem transar?
RICK: é, é que eu lembrei que tenho que terminar um trabalho para amanhã...
NANDA: Mas a gente não vai nem transar?
RICK: Eu queria mas é que não vai dar...
NANDA: Que estranho né?
RICK: O quê?
NANDA: A gente se vê sem transar. (TEMPO) Posso então  me marturbar?
RICK: Não vai dar mesmo, eu to cansado...
NANDA: Você só precisa assistir. 
RICK: Escuta, ia ser muito interessante, mesmo, mas fica pra próxima. é que eu lembrei que eu tenho esse lance...
NANDA: É rapidinho.  Eu consigo em 20 segundos. 
RICK: Eu  te ligo amanhã.
NANDA: Amanhã? Mas eu vou ta estudando amanhã... agora eu vou ficar pegada direto por causa do concurso.  Eu quero ser juíza.
RICK: Pena.  Fica pra uma outra vez.
NANDA: Ah, então ta, fazer o quê né?  Você ficou com sono né?  Eu não devia ter falado essa história do concurso.  Eu não aprendo,mas tudo bem, a gente sai outro dia.  Olha deixa só eu ver se o Juarez ta lá na portaria pra abrir a porta pra você.  (liga) Alô Juarez? Ah, vc ta aí, né? Achei que você tivesse com a minha mãe.  Escuta, tem um amigo meu descendo aí, fica aí e abre a porta pra ele hein? Não vai ficar se agarrando com o vigia que o meu amigo ta cansado hein? E não vai agarrar ele hein Juarez. Tá. Ta bom, tchau.   
NANDA: Pronto. Já falei com ele.  Olha, vamos fazer o seguinte?  Me liga amanhã sim, me liga que mesmo se eu não puder ir, minha mãe vai com você.  Leva minha mãe. Você vai adorar a minha mãe.   Tchau.  (vai até o interfone) Alõ Juarez, sou eu.  Olha, depois que vc abrir a porta pra ele, dá uma subidinha aqui fazendo favor Juarez.   Eu quero ver se esse uniforme é justo mesmo.  (grita) Mamãe, Carmem, Mamãe, acorda que o Juarez ta subindo! 

FIM. 



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“Cristo era Gay superinteligente” afirma Elton John
Folha de São Paulo – Capa – 20/02/2010


OS DOIS LADRÕES
De Ivan Fernandes

Cela escura.  Dois homens jogam dados sobre um manto vermelho. Perto deles, um homem ferido, deitado de costas. Nunca vemos seu rosto: somente suas costas marcadas de chicote e sua respiração cansada.

LADRÃO 1 - Soltaram Barrabás.

LADRÃO 2 - 21. Ganhei de novo.

1 - E botaram esse aí de volta pra dentro.

2 - Que te importa? Você já me deve 3 rodadas. Aliás, 4: você apostou que quem saía era ele e Barrabás ficava. Tá me devendo.

1 - E daí? De manhã vamos morrer. (pausa)

2 - (recolhe os dados) Você me tirou a vontade de ganhar.

1 - Sabe, talvez a gente devesse devolver o manto pra ele.

2 - Não ouviu o que o guarda disse? Ele tem que ficar no sereno.

1 - O que será que ele fez?

2 - Se tá aqui com a gente, é por que é igual.

1 - Deve ser muito pior. Se até deixam a gente ficar jogando. E não bateram na gente.

2 - Fale por você. E essa ferida na minha perna?  

1 - É porque você bateu na velha. Por que você foi bater na velha? Era só roubar. Aí os guardas ficam putos e te sentam o chicote.

2 - Eu não gostei do jeito como a velha olhou pra mim. Como se eu fosse um ladrão.

1 - Ela me olhou assim também. Nem por isso eu bati nela.

2 - É que você é metido a diferente. Mas é igual.

(O outro homem se mexe)

1 - Acho que ele acordou.

2 - Acho que tava acordado o tempo todo.

1 - A gente não devia deixar ele deitado nessa pedra fria.

2 - Que diferença faz? Ele também vai morrer de manhã. Além do mais se a gente desobedecer, é crucificado de cabeça pra baixo.

1 - Eu vou devolver o manto pra ele.

2 - Dizem que de cabeça pra baixo é mais demorado e mais sofrido.

1 - Eu não quero morrer com o olhar daquela velha na minha cabeça. Queria que alguém me olhasse de outra forma.

2 - Ele não é alguém.

1 - Ele me basta. (pega o manto) Vou levar um pouco d’água também. (pega uma pequena cuia d´água)

2 - Ei, tá maluco? Assim é demais! Não quer levar uns chocolates também? Isso aqui não é serviço de quarto! Que mordomia é essa prum desconhecido?

1 - Ele não é desconhecido, vai morrer junto com a gente. É quase um vizinho. (vai até o homem caído com o manto e a água. Molha o manto e passa suavemente em suas feridas. Joga um pouco de água nas suas feridas. Cobre-o. Faz tudo isso sem que jamais vejamos o rosto do homem caído.)

2 - (fala enquanto Ladrão 1 executa as ações) Viu a coroa de espinhos? Barrabás disse que é porque esse aí é o rei dos judeus. Também ô terra pra ter rei essa. O camarada faz alguma coisa bem, logo vira rei. É rei dos camelos, rei das jóias, rei das tintas, rei dos sucos. Que tal esse aí? Tem cara de rei?

1 - Não sei. Tem os olhos fechados.

2 - Eu disse. Tá morto. Tá nem sentindo o que você tá fazendo. Pra quê ficar aí ensaboando defunto? Vamos voltar a jogar. Pelo menos eu morro me sentindo um vencedor.

1 - (terminando) Agora ele deve se sentir melhor.

2 - Ele nem tem forças. E Barrabás disse que ele vai ser obrigado a carregar a própria cruz. Já imaginou isso? Carregar a própria cruz! Sabe quanto pesa uma cruz? Eu prefiro levar mil chibatadas. O que será que esse cara fez pra neguim fazer isso com ele?

1 - Deve ser porque ele anda com Madalena. Ela mesma já foi apedrejada tantas vezes.

2 - E daí? Madalena já deu pro deserto inteiro. Eu mesmo perdi a virgindade com ela. E sem pagar!

1 - Justamente. Ele disse a ela que o amor era livre, era de todos. E ela passou a amar sem escolher. E sem cobrar. É por isso que ela foi apedrejada. As outras putas devem ter ficado putas. Mó concorrência desleal.

2 – Mulher? Não sei não. Pois eu ouvi dizer que o negócio dele era com Judas. Foi Judas que caguetou ele. E sabe como foi? Judas chamou ele na frente dos guardas e eles se beijaram. Na frente de todo mundo!

1 - (corre e tira o manto e a agua de perto do corpo) Eu, hein, rosa? Tá me estranhando? Não vem não lagartixa que aqui é azulejo! E eu ajudando o cara na maior inocência. E porque vão crucificar ele do nosso lado? Vai queimar nosso filme geral! Eles pensam que a gente é igual? Falta de respeito! A gente aqui é ladrão!

2 - Ele deve ter culpa no cartório mesmo. Viu como ele nem reagiu? Os guardas batiam e ele oferecia a outra face.

1 - Mas se Judas era marido dele, por que ia dedurar o cara, sabendo que ele ia apanhar, ser preso, essa merda toda?

2 - Ah, briga de bicha é essa baixaria mesmo.
 
1 - Pensando bem, faz sentido.

2 - O que?

1 - Se ele diz que o amor é livre, que deve ser de todos, sem escolher, faz sentido que ele ande com Madalena e com Judas ao mesmo tempo. Não é? Amor livre! O que você acha?

2 - Eu acho que o problema desse camarada é que ele não fala. Não disse uma palavra desde que entrou aqui. Como a gente vai saber quem ele é de verdade?  

1 - Ei! Ô cumpadi! Tá ouvindo? Essas histórias que contam sobre você são de verdade?

2 - Você tá aqui por que?

1 - O que você quer?

2 - Tem alguma coisa pra dizer?

(O homem permanece na mesma posição, em silêncio. Os dois ladrões vão olhar o rosto do homem caído)

1 - Que tal te parece?

2 - Um cara normal.

1 - Que nem a gente.

2 - Ele nunca abre os olhos?

1- Tá respirando.

(Barulho de passos e portas abrindo ao longe)

2 - Já deve ter amanhecido lá fora. Começaram a levar os condenados da ala 1. (para o homem caído) Ouviu? Tá chegando a nossa hora! (o homem caído não se mexe. Para o outro) Dizem que ele não tem medo porque é um feiticeiro que aprendeu a vencer a morte. Dizem que ele andava em cima das águas e o caralho.

1 - É tua última chance de esclarecer. Fala pra nós. A verdade. O que é a verdade? (cata uma pedra) Escreve aí no muro com essa pedra. Deixa alguma de coisa pros que ficarem.

2 - Por que você ainda tá preocupado com esse cara?

1 - Você não entende? Se cada um diz uma coisa com ele vivo, imagina o que vão dizer em nome dele quando estiver morto. Daqui a pouco podem até dizer que ele era um santo, um deus.

2 - Deixa de ser exagerado. Um deus crucificado no meio dos ladrões? Daqui há cinco minutos, tudo vai acabar. Ninguém nunca mais vai ouvir falar dele. Nem de nós.

1 - É. Pode ser.

(barulhos mais próximos.)

2 - (olhando pela cela) Os guardas tão abrindo a nossa ala.

1 – (senta-se) Minhas pernas sumiram. O que é se faz nessa hora?

2 – Acho que as pessoas rezam.

1 – Eu não sei rezar. Você conhece alguma reza?

2 – Só a oração de Barrabás. Barrabás aprendeu com ele quando pensou que ia morrer. Mas Barrabás foi solto e quem ficou foi ele.

1 – Mas ele não tá rezando.

2 – Isso é problema dele. Você quer rezar ou não?

1 – Reza aí que eu ter acompanho.

(ajoelham-se)

2 – (em voz alta) Pai nosso que estás no céu. Santificado seja o vosso nome. Venha a nós o vosso reino. Seja feita a vossa vontade assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. Perdoai as nossas ofensas...

(luz vai sumindo, antes que a oração chegue ao fim.)