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sábado, 8 de novembro de 2014

Quarta Noite do Clube da Cena Redes Sociais

E a quarta semana do Clube da Cena Redes Sociais foi assim:



MENDIGO ARTE, de Cristina Fagundes  – Post Fui ser legal e atirar um pacote de bolachas para mendigo e agora ele tá gritando Novinha Mostra os Peitos.
Com Ana Carolina Sauwen e Mariana Consoli  – direção Alexandre Bordallo 




2.     MANAUS, de Ivan Fernandes  – Post Adoro Passear
                     Com Bruno Bacelar e Maíra Kestenberg  – direção Ana Paula Lopes 


3.     CIDADANIA A GENTE APRENDE DESDE PEQUENO,  de Diego Molina   – Post Afrodescendesco
      Com Renato Albuquerque e José Auro Travassos  – direção Breno Sanches  



4.     M.I. – MAIS QUE IMPOSSÍVEL, de Daniel Berlinsky  – Post Procuro apartamento que não me faça ter que vender um rim pra pagar
Com Marcelo Dias e Kakau Berredo  – direção João Rodrigo Ostrower 



5.     VINGANÇA É UM PRATO QUE SE COME DOCE, de Paula Rocha – Post Guerra de Açúcar no Guanabara.
Com Karen Liberman e Priscila Assum  – direção Cadu Fávero



6.     NOVELA DAS SEIS, de César Amorim  – Post Minha mãe tá com Mania de ir na Cartomante
                 Com Marcelo Cavalcanti e Flávia Espírito Santo  – direção Lincoln Vargas 

E os nossos músicos Maria Thlalita de Paula e Aldo Medeiros:



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E, como de costume, o público escolhe as cenas preferidas.

A cena mais votada da noite foi Cidadania a Gente Aprende Desde Pequeno.


E empatados no segundo lugar ficaram:

Mendigo Arte


e Novela das Seis



E confira os textos das cenas:

“CIDADANIA A GENTE APRENDE DESDE PEQUENO”.
De Diego Molina.

Na sala da diretoria. Dois garotos, JOÃOZINHO e PEDRINHO, conversam com a DIRETORA, sempre muito lúcida.
DIRETORA – Joãozinho e Pedrinho, da quarta série D, não é isso?
OS DOIS – Sim, professora.
DIRETORA – Pedrinho, o que aconteceu?
PEDRINHO – O Joãozinho me chamou de nordestino escroto filho da puta.
DIRETORA – É verdade, Joãozinho?
Joãozinho não responde.
DIRETORA – Hein, Joãozinho? Chamou o Pedrinho de nordestino escroto filho da puta?
JOÃOZINHO – Chamei...
DIRETORA – Não tem vergonha, menino? Hein? Isso é vocabulário que se diga? Hein? Isso aqui é uma instituição de respeito! É colégio caro! Não pode sair xingando o coleguinha de qualquer coisa!
JOÃOZINHO – Foi sem querer...
PEDRINHO – Sem querer nada! Ele sabe que eu nasci em Pernambuco e fica pegando no meu pé!
DIRETORA – Pede desculpas pra ele, Joãozinho!
JOÃOZINHO – Tá bom... Desculpa, Pedrinho.
DIRETORA – Não, repete o que falou pra ele. Fala: desculpa, Pedrinho, por ter te chamado de paraíba escroto cabeçudo filho da puta.
PEDRINHO – Ele não falou isso!
DIRETORA – Cala a boca que eu tô tentando te ajudar! Fala, Joãozinho!
JOÃOZINHO – Desculpa, Pedrinho, por ter te chamado de paraíba escroto cabeçudo filho da puta.
DIRETORA – Isso. Agora fala: entendo que sua mãe foi obrigada a fazer coisas desagradáveis aos olhos de Deus, mas antes ser uma vadia depravada que morrer de fome.
PEDRINHO – Professora, minha mãe é médica!
DIRETORA – Fica quieto! Fala, Joãozinho!
JOÃOZINHO – Pedrinho, entendo que sua mãe... Esqueci o resto, professora.
DIRETORA – Fala comigo, então. Pedrinho, seu ignorante de merda...
JOÃOZINHO – Pedrinho, seu ignorante de merda...
DIRETORA – Analfabeto safado e preguiçoso...
JOÃOZINHO – “Afalnabeto” safado e preguiçoso...
DIRETORA – Comedor de farinha e rapadura...
JOÃOZINHO – Comedor de farinha e rapadura...
PEDRINHO – Eu nem como isso!!
DIRETORA – Tô tentando ajudar!
PEDRINHO – Não quero mais!!
DIRETORA – Tá bom. Não quer, não quer.
PEDRINHO – Já vou...
DIRETORA – Que é isso, menino? Eu te liberei?
PEDRINHO – Já tá resolvido.
DIRETORA – Não tá não. Dá a outra cara a tapa.
PEDRINHO – O quê??
DIRETORA – Dá a outra cara a tapa! Tem que demonstrar humildade!
PEDRINHO – Mas ele não me bateu!
DIRETORA – Mas te agrediu. Verbalmente. Então é como se fosse. Não agrediu, Joãozinho?
JOÃOZINHO – Agrediu, professora!
DIRETORA – Então dá uma porrada na cara do Pedrinho, Joãozinho.
JOÃOZINHO – Oba!!
PEDRINHO – Não quero!
DIRETORA – Ô, Pedrinho! Que tipo de nordestino é você? Achei que fosse guerreiro! Lutador! Cabra macho! Não é?
PEDRINHO – Eu sou tudo isso! Quem não é macho é o Joãozinho!
JOÃOZINHO – Cala a boca!!
PEDRINHO – Não calo não! Professora, sabe o que ele tava fazendo com o Ricardinho, da terceira C?
JOÃOZINHO – Eu vou te pegar, idiota!
DIRETORA – Opa, calma aí, Joãozinho! Agora eu quero ouvir! Fala, Pedrinho.
PEDRINHO – Tava obrigando o Ricardinho a fazer espadachim com ele no banheiro!
JOÃOZINHO – Mentiroso!
DIRETORA – O que é espadachim?
PEDRINHO – É pinto com pinto!!
Tempo.
DIRETORA – Isso é verdade, Joãozinho? Tava fazendo espadachim com o Ricardinho da terceira C?
Joãozinho fica mudo.
DIRETORA – Porra, Joãozinho! Eu querendo aqui quebrar teu galho e você me vem com viadagem, cara?
JOÃOZINHO – O Ricardinho também quis!!
DIRETORA – Não, Joãozinho, não, cara! Não tá certo! O garoto ser nordestino ainda vá, porque nasceu assim. Mas viado, cara, que tu ainda pode escolher?! Aí você me sacaneia!
JOÃOZINHO – Eu só tava brincando!
DIRETORA – Brincadeira brincadeira tá aí o Leão Lobo. Taí o Jean Willys. Taí o Raul Franco. Que é que eu faço contigo, Joãozinho? Hein? Vou ter que te mostrar o caminho certo da vida? Te ensinar como é que funcionam as coisas da natureza? Pega no meu peito.
JOÃOZINHO – Não!!
DIRETORA – Não vai pegar? É peroba, então?
JOÃOZINHO – Não sou peroba!
DIRETORA – É o que, então? Esconde-cobra? Pé-de-salsa? Hein? Fala assim: eu sou morde-fronha.
JOÃOZINHO – Não falo!
DIRETORA – Diz assim: meu nome é Joãozinho da quarta série D e sou jóquei de jiboia. Hein? Não? E vampiro de linguiça?
JOÃOZINHO – Para, professora!
DIRETORA – Tá bom, eu paro. Só me responde uma coisa. Menino que é menino gosta de quê? Linguiça ou acarajé? Entendeu, né? (Faz com a mão) Linguiça é isso... Acarajé é isso...
PEDRINHO – Eu gosto de acarajé!
DIRETORA – Ainda bem, né, Pedrinho? Nordestino e viado ia ser demais! Só faltava você ser negro também. Negro, viado, nordestino e torcedor do botafogo. Aí era o cúmulo da minoria. Aliás, vocês sabem o que é cúmulo?
PEDRINHO – O Joãozinho sabe! Adora dar o cúmulo! (Ri)
JOÃOZINHO – Para!!! (Chora)
DIRETORA – Isso, Pedrinho! Tá pegando o jeito! Se você continuar melhorando assim e perder o sotaque, quem sabe um dia você vira gente?
PEDRINHO – Oba!!
Toca o sinal.
DIRETORA – Os dois, aqui, em fila! E engole o choro, Joãozinho! Hora do hino.
Toca o hino nacional.
DIRETORA – Mãos pra trás. Quando terminar o hino vamos mostrar, eu e você, Pedrinho, o que um homem deve fazer com uma mulher.
PEDRINHO – Eu quero!
DIRETORA – Quem sabe Joãozinho aprende. Né, Joãozinho?
JOÃOZINHO – Não!!
PEDRINHO – Êêêê!!!
FIM

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Mendigo Arte - de Cristina Fagundes


Exposição de arte – duas amigas se encontram.
ODETE – Maria Lúcia!
MARIA LÚCIA –  Odete!   
ODETE – To te procurando há meia hora! 
MARIA LÚCIA –  É que eu vim direto pro banheiro. Eu ando com a bexiga solta menina.   
ODETE – A exposição tá bárbara, você viu os Impressionistas?
MARIA LÚCIA – Eu to te falando Odete.  Só deu pra eu ver as esculturas do corredor, que eu vim correndo fazer xixi.
ODETE –  Mas que galeria é essa? (sobre o local onde estão)
MARIA LÚCIA – Acho que é a parte de arte contemporânea.  (Olha em volta e vê mendigo) Gente, que isso?
ODETE –  Isso o quê?  (tb vê) Nossa... (se aproximam do mendigo).
MARIA LÚCIA – Olha só.... (tempo - aponta o catálogo)  O que que tá dizendo aí? 
ODETE –  Mas será que tá no catálogo? 
MARIA LÚCIA – Claro que tá, olha lá, (mostra plaquinha em cima do mendigo) é o número 7.  
ODETE –  Hum, 7? Deixa eu ver.(olha catálogo)  Ah, tá aqui ó: Mendigo em Carne e Osso portando Cachaça.  Origem desconhecida.  Encontrado em Copacabana.  Dimensões: 1,75 em pé. Hum, nem parece né?
MARIA LÚCIA – Mas é que ele tá sentado Odete. 
ODETE  – Mas que interessante.   
MARIA LÚCIA – Amei.  (ficam olhando)
ODETE –  (lê) Sobreposição de panos rasgados e poeira das ruas.  
MARIA LÚCIA –  Rústico né?  
ODETE – Super me afetou. 
MARIA LÚCIA – Ih, ele mexeu.
ODETE – Claro Maria lúcia, ele tá vivo ué.
MARIA LÚCIA – ih, ele tá me olhando.  
ODETE – E agora?
MARIA LÚCIA – Será que é pra gente interagir?
ODETE – Mas como?
MARIA LÚCIA – Ele tá olhando pra minha bolsa.  (tem idéia) Peraí.  (pega um pacote de bolachas e oferece uma para ele)  Oi... tudo bem?  Você tá com fome?  Quer uma? 
ODETE – Que isso Maria Lúcia?
MARIA LÚCIA – Bolacha. 
ODETE –  Mas será que pode alimentar ele? 
MARIA LÚCIA –  Mas que besteira.  Você não tá vendo que é uma obra interativa?  É claro que pode.  (pro mendigo) Quer?   Toma aqui ó.
MENDIGO pega a bolacha e a come, olhando pra elas. Tempo.  
ODETE – E agora? O que será que é pra fazer?  
MENDIGO – Mostra os peitos novinha.
MARIA LÚCIA – Que isso?
ODETE – Gente!
MARIA LÚCIA – Será que isso faz parte da experiência?
ODETE – Não sei... 
MARIA LÚCIA – Vou dar outra pra ele.
ODETE –  Cuidado.
MARIA LÚCIA – Olha, eu tenho mais, quer?   DÁ OUTRA BOLACHA MENDIGO COME E FICA EM SILÊNCIO.
MARIA LÚCIA – Você não vai falar nada?
MENDIGO –  Levanta a saia novinha.
MARIA LÚCIA – Odete! Ele me chamou de novinha! Você viu? 
ODETE – Peraí que eu também tenho uma coisa aqui.   (pega um amendoim) Quer?  É amendoim ó (come um) é bom ó, uma delícia... Quer?  (bota um pouco na mão dele – que come – elas aguardam).  E aí?
MENDIGO – Bruxa velha vazia interior eco faz. 
ODETE – Não entendi. O que que ele quis dizer com isso?  
MARIA LÚCIA – Acho que é tipo um biscoito da sorte. Uma frase pra pensar.
ODETE – Não gostei.  
MARIA LÚCIA – Mas por quê?
ODETE – Não sei.  Achei hermético.
MARIA LÚCIA – E se eu der uma esmola pra ele, o que será que acontece?
ODETE – Não é correto.
MARIA LÚCIA – Mas por quê?  Ele pode usar pra fazer um lanchinho na bombonière. 
ODETE – Você não tá vendo que assim ele não vai trabalhar nunca Maria Lúcia?  Você não pode dar o peixe, você tem que ensinar a pescar.
MARIA LÚCIA – Mas ele já tá trabalhando, ele é uma obra de arte. Isso é uma forma de ocupação, não?  
MENDIGO CANTAROLA TRECHO DA MÚSICA DA ANA CAROLINA: Odarundá rundê, oderundê rundá, no meu quarto na cozinha na sala de estar... (PÁRA DE CANTAR)
MARIA LÚCIA – Olha. Ele canta.
ODETE – e daí?
MARIA LÚCIA – Acho que ele tá falando para gente da casa dele.
ODETE – Agora você pirou na batatinha.
MARIA LÚCIA – É sim. É uma não casa Odete, ele tá evidenciando o que não há, é um discurso sobre a ausência, você não tá vendo?
ODETE – Não.
MARIA LÚCIA – Odete, você não tem sensibilidade.
ODETE – Ah, Maria Lúcia, você tem mania disso.
MARIA LÚCIA – Disso o quê?
ODETE – Toda exposição é a mesma coisa.  Só você que pode ser a entendida.  
MARIA LÚCIA –  Até parece. 
ODETE – Coisa chata.  Você acha que só você que sabe tudo.  Que é a rainha da cocada preta.  
MARIA LÚCIA – Não sei de onde você tirou isso.
ODETE -   Na exposição do Dali foi a mesma coisa.  Você veio dizer que aquele bigode espetado dele era trauma de infância.  Ora me poupe.
MARIA LÚCIA – Você devia estudar mais Odete.  Você parece que só vem pra exposição para ficar no ar condicionado.  
MENDIGO PEIDA.  
MARIA LÚCIA – Credo! Acho que ele peidou.
ODETE – Por que o espanto Maria Lúcia?  Mendigos peidam.   A gente prende.  Eles peidam.  Eles não são reprimidos que nem você não.
MARIA LÚCIA – Eu não sou reprimida.
ODETE – É sim. Um xixi no mar você não é capaz de fazer Maria Lúcia. Mas eles não.  Eles se permitem.  São livres pra peidar, pra ir e vir, pra dormir onde quiserem, sob a luz das estrelas.  Eles são livres.   Você não entende?  É disso que se trata essa obra Maria Lúcia. De liberdade.  (pra ele) Não é?
MENDIGO – Fuck you.
MARIA LÚCIA – Nossa.  Ele fala inglês.
ODETE – Será que ele já foi exposto em Nova York? (olha o catálogo)
MARIA LÚCIA –  Ih, você viu o que ele fez com a língua?   
ODETE – Caramba, olha isso:  valor sugerido: 40 mil reais. 
MARIA LÚCIA –  Odete ele tá fazendo umas coisas estranhas.  
ODETE – Nossa, que mendigo caro.  
MARIA LÚCIA – Você acha Odete?
ODETE – Ué, você não viu a quantidade de mendigo na porta quando você entrou não?  Dava pra levar uma meia dúzia pra casa de graça. E esse é 40 mil. Onde já se viu isso? 
MARIA LÚCIA –  Mas é uma obra de arte, você não tá vendo?
ODETE –   Não tá vendo o quê? 
MARIA LÚCIA –  Ele é  diferente Odete.  Ele é único.   Ai. 
ODETE – Que foi agora?
MARIA LÚCIA – Ele pegou no meu cabelo. Você viu?  
ODETE – Não chega perto assim Maria Lúcia.  
MARIA LÚCIA – O que mais será que ele faz?  (TOCA NELE)
ODETE –  Maria Lúcia não toca nele.  Tá falando alí que é pra não tocar.  E se tiver alarme?  
MARIA LÚCIA – Odete, eu vou com ele alí no banheiro.
ODETE – Você vai aonde?
MARIA LÚCIA –  Você olha para mim se vem alguém tá?  Se vier, você assobia. 
ODETE – Perái,  vão dizer que você roubou ele.  Você quer ir presa?  
MARIA LÚCIA – Não. Eu quero viver uma experiência artística completa.  (pro mendigo) Vem comigo meu bem.  (saindo com ele).
ODETE – Você tá maluca Maria Lúcia?
MARIA LÚCIA – Você não entenderia Odete.  
Fim. 

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Novela das Seis - de César Amorim.

TÍPICA NOVELA MEXICANA. COM TRILHA SONORA RECHEADA DE SONS IMPACTANTES DURANTE AS REVELAÇÕES.
CARTOMANTE – Branco.
ANGÉLICA – Preto.
CARTOMANTE – Preto?
ANGÉLICA – Preto.
CARTOMANTE – Ah, filha, ele pinta. Não é possível. Aqui tá bem claro. Grisalho.
ANGÉLICA – Grisalho não é branco.
CARTOMANTE – É o quê, então?
ANGÉLICA – No máximo cinza.
CARTOMANTE – Cinza. Pronto. Tá bom assim?
ANGÉLICA – Não. Porque o cabelo dele não é cinza. É preto.
CARTOMANTE – Estamos falando da mesma pessoa?
ANGÉLICA – Acho que não.
CARTOMANTE – Tou falando do homem que te come.
ANGÉLICA – Não é do meu marido?
CARTOMANTE – Claro que não.
ANGÉLICA – Ah, então, desculpa. O Geraldo, meu amante, é grisalho mesmo, mais pra branco total.
CARTOMANTE – Estava certa. Deixa voltar. Esse homem, teu amante, te fez um filho, não foi?
ANGÉLICA – Foi?
CARTOMANTE – Se não ainda, a criança deve tá apontando por aí. Vejo uma filha na sua vida.
ANGÉLICA – Impossível. Não posso mais ter filho.
CARTOMANTE – Mas você já tem uma filha, ou não?
ANGÉLICA – Tenho um filho. O Felipe. Mas ele é meu filho e do meu marido.
CARTOMANTE – Filho? Estranho... Não é isso que vejo nas cartas. 
ANGÉLICA – As cartas estão dizendo que o Lipe não é filho do Osvaldo, meu marido? 
CARTOMANTE – Pelas cartas, sem chance. O seu filho é filho de outro homem. E é uma filha.
ANGÉLICA – Não é possível! O meu amante é estéril.  
CARTOMANTE – Então, sua filha é filha do Espírito Santo. 
ANGÉLICA – Não. Ele é filho do meu marido. E eu não tenho filha, já disse.
CARTOMANTE – Impossível. Está nas cartas. E elas não mentem. Você não pulou a cerca?
ANGÉLICA – Pulo a cerca há anos, mas sempre pro mesmo quintal. 
CARTOMANTE – Bom, se não é do seu amante, não faço ideia de quem seja. De seu marido não é.
FELIPE ENTRA.
FELIPE – Eu posso explicar tudo, mamãe.
ANGÉLICA – Felipe, filho. O que você faz aqui?
FELIPE – Eu sei de quem eu sou filho, mamãe. 
CARTOMANTE – Você é o filho dela?
FELIPE – Sou sim, Madame Zoraide. 
CARTOMANTE – Mas você foi adotado. 
ANGÉLICA – Adotado?
FELIPE – Adotado, mamãe.
ANGÉLICA – Por quem, meu Deus? Que história é essa?
FELIPE – Fui adotado por papai.  
ANGÉLICA – Que loucura é essa, Lipe? 
FELIPE – Não é loucura, mamãe. Aliás, você não é minha mãe. 
ANGÉLICA – Deixe de maluquice! Você já conhecia Madame Zoraide?
CARTOMANTE – Ele veio aqui semana passada. 
FELIPE – Fui eu que lhe dei o contato dela, mamãe. 
ANGÉLICA – Não lembro...
CARTOMANTE - Ah, essa é a sua mãe que sofre de perda de memória...
FELIPE – É ela sim, Madame Zoraide. A memória dela só vai até a semana anterior. 
CARTOMANTE – Que triste. Eu entendo bem o que é isso...
FELIPE – Eu sei.
ANGÉLICA – Minha memória o quê? Vocês podem me explicar o que está acontecendo aqui?
FELIPE – Mamãe, a senhora sofreu um acidente há muitos anos e perdeu a memória recente. Toda semana, a gente tem que explicar pra senhora quem a senhora é e quem somos nós. Já faço isso há muitos anos.
ANGÉLICA – Então, você sabia que era adotado? 
FELIPE – Sempre soube. E foi isso que me fez acreditar no poder da Madame Zoraide. Ela me falou isso assim que me viu. 
ANGÉLICA – E o Osvaldo, meu Deus! Ele sabe disso?
FELIPE – Sabe sim, mamãe. Ele me confessou tudo. Ele e o Geraldo me contaram.
ANGÉLICA – O Osvaldo conhece o Geraldo? Meu Deus, estou perdida. Eles já sabem de tudo, então?
FELIPE – De que a senhora é amante do Geraldo?
ANGÉLICA – Você também sabe?
FELIPE – Sei sim, mamãe. E também sei que isso é mentira. 
ANGÉLICA – Mentira? Ah, claro que o Geraldo desmentiria essa história. Ele não é homem pra assumir.
FELIPE – Pelo contrário, mamãe. Ele é homem pra assumir sim. Ele assumiu tudo. Só que a senhora nunca foi amante dele.
ANGÉLICA – Claro que fui. Claro que sou. Eu amo o Geraldo. 
FELIPE – E ele ama meu pai. Você e o Geraldo são apenas amigos.
CARTOMANTE – O valete duplo na sua vida, rapaz! Sabia que tinha babado nessa história.
FELIPE – Foi por causa da descoberta do caso deles que a senhora sofreu o acidente que lhe afetou a memória. Daí a senhora distorceu tudo e passou a achar que eu era seu filho e que o Geraldo era seu amante, quando na verdade ele é amante do meu pai. 
ANGÉLICA – Isso não é possível.
FELIPE – A senhora diz isso toda semana, já tou acostumado. 
ANGÉLICA – Então, você não tem mãe? 
FELIPE – Sempre gostei da senhora como de uma mãe. Mas queria descobrir quem era minha mãe de verdade, por isso vim aqui em Madame Zoraide. 
ANGÉLICA – E ela lhe disse quem é sua mãe?
FELIPE – Não. Isso ela não soube dizer. Mas eu vim aqui já sabendo quem era, só precisava da confirmação. Foram anos de investigação. Graças ao Facebook, encontrei a Ritinha.
CARTOMANTE – Minha filha?
ENTRA RITINHA.
RITINHA – Sim, mamãe. 
CARTOMANTE – E o que a Ritinha tem a ver com isso?
FELIPE – O acidente que minha mãe sofreu foi por causa da senhora, Madame Zoraide.
CARTOMANTE – Como é?
RITINHA – Ela atropelou a senhora, mamãe. E vocês duas perderam a memória. 
CARTOMANTE – Isso eu sei. Então, foi ela? Minha memória só vai até o dia do acidente, nada mais que isso... Meu passado remoto é um mistério.
RITINHA – A senhora foi atropelada no dia que tinha descoberto o paradeiro do seu filho.
CARTOMANTE – Eu tenho um filho? Que história é essa, Rita? Só tenho você.
RITINHA – Não, mamãe. A senhora teve outro filho, que deu pra a adoção há muitos anos. Antes do acidente, a senhora vivia em busca dele. E tinha descoberto o paradeiro dele naquele dia fatídico.
CARTOMANTE – Você está querendo dizer que...
FELIPE – Que eu sou seu filho, Madame Zoraide!
ANGÉLICA – Não! Isso não é possível!!
FELIPE ABRAÇA A CARTOMANTE, QUE FICA PERPLEXA. ANGÉLICA PÕE A MÃO NA CABEÇA, PARECE SENTIR DOR.
 CARTOMANTE  - Eu tenho dois filhos, meu Deus!
RITINHA – Não, mamãe. Só tem um. Eu não sou sua filha!
FELIPE E CARTOMANTE  – O quê?
RITINHA – Eu fui adotada pela senhora para suprir a falta do seu filho verdadeiro. Também tenho investigado a minha vida inteira. E por essas coincidências que só acontecem em novela, a minha verdadeira mãe é... dona Angélica.
FELIPE E CARTOMANTE – Não!
RITINHA – E tudo o que eu queria saber era por que ela me abandonou quando nasci? E quem é meu pai?
TODOS OLHAM PARA ANGÉLICA.
ANGÉLICA – O que estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Quem são vocês?

FIM.




segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Terceira noite do Clube da Cena Redes Sociais

E a terceira semana do Clube da Cena Redes Sociais foi assim:


  1. COM OU SEM?, de César Amorim  – Post Dou para Qualquer homem que saiba usar a Crase. Com Cristina Fagundes e Alex Nader  – Direção Fernando Melvin 



  1. DONA NADIR, de Cristina Fagundes – Post Se alguém faz um Mal a mim, desejo fervorosamente que se apaixone perdidamente
          Com Ana Paula Novellino, Bia Guedes e Jorge Neves  – Direção Andy Gercker 



  1. A TRAIÇÃO, de Ivan Fernandes  – Post Eu gosto mais qd ela fuma, gosto mais qnd ela bebe, gosto mais qndo ela vem toda nua, gosto mais de dela sem censura.
              Com Zé Guilherme Guimarães e Mariana Consoli – Direção Bruno Bacelar



  1. MILAGRES NÃO EXISTEM, de Bruno Bacelar  – Post Alguém quer ser meu guru alternativo bem louco?
Com Marcelo Lima e Mariana Costa Pinto  – Direção Leo Castro




  1. COLÓQUIO SOBRE A TIMIDEZ, de Diego Molina  – Post Quando falo com Meninas demasiado bonitas fico até gago.
              Com Marcello Gonçalves e Marcella Leal  – Direção Carmen Frenzel




  1. PARTO PRA CIMA, de Paula Rocha – Post Esther a caminho... No hospital.
Com Rita Fischer, João Velho e Bruno Bacelar  – Direção Vini Messias

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Nossos Músicos:



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E as cenas mais votadas pelo público foram:

Primeiro Lugar: Dona nadir


Dona Nadir - de Cristina Fagundes. 

Um rapaz de 20 anos, uma mulher e uma idosa sentados à mesa.  Bebem.  A idosa bebe suco de canudinho. Faz barulho. A mulher a observa. Tempo. 
MULHER  –  Mas há quanto tempo vocês estão... estão se relacionando Dona Nadir?
Silencio.
MULHER – Dona Nadir? 
Nadir sugando canudinho.
MULHER –  Dona Nadir, há quanto tempo a senhora e o Junior estão namorando?
Nada.
JUNIOR – Mamãe.  Você tem que falar alto.
MULHER – (alto) Dona Nadir, a senhora tá namorando com o meu filho há quanto tempo?
IDOSA –  Invento o quê? 
JUNIOR – ah, perái, deve tá desligado.  (liga aparelho de surdez de Nadir).  Pronto. Acho que agora foi. 
MULHER –  (alto) Eu to querendo saber, há quanto tempo a senhora está namorando com ele.  Há quanto tempo??
IDOSA – Não precisa gritar. Já ouvi.
MULHER – Desculpa.
IDOSA – Namorando?
MULHER – Bom, ele me falou que vocês estavam namorando.  Era uma brincadeira Júnior?
IDOSA – Namorando, 3 meses.  Que antes a gente só tava ficando, né Junior?  
MULHER – Você tava... tava ficando com essa senhora, Júnior?  
JUNIOR – Tava mamãe.  Mas isso foi antes deu me apaixonar.  Agora é namoro mesmo.  
MULHER –  (tentando ser compreensiva) Sei. Namoro. Ah tá. Desculpa, é que eu fui pega meio de surpresa.  Escuta, meu filho, mas você não tava namorando aquela menina da academia?
JUNIOR –  Tava. Mas não tinha nada a ver não mãe.
MULHER –  mas era uma menina tão bonita. Acabou?
JUNIOR – Acabou mãe.
MULHER – Ela parecia uma indiazinha. Uma graça a menina. Qual era mesmo o nome dela? 
IDOSA – Flavinha.
MULHER – Ah, a senhora conhece?
IDOSA – é a minha neta. A Flavinha.
MULHER – Sua neta?
JUNIOR – É mamãe.  Eu conheci a Dona Nadir no aniversário de 17 anos da Flavinha. Na confeitaria Colombo. 
IDOSA –  Copacabana.  Uma beleza aquela vista... 
MULHER – Junior você tá namorando a avó da Flavinha?
IDOSA – Mas aquela festa foi um estouro! Não foi? 
JUNIOR – Então mamãe.  Não é só um namoro. Eu to apaixonado.  A gente vai morar junto mãe. 
MULHER (pra ele) Me dá um cópo d´água. (bebe) A gente quem?
JUNIOR – A gente vai se casar mamãe. 
MULHER – Quem?
JUNIOR – Eu e a dona Nadir. 
IDOSA – A gente tem muita pele.
MULHER – Muita o quê?
IDOSA – Muita química, eu e o Júnior. Não é Júnior?
JUNIOR – É gatinha.  
IDOSA – Uma brasa esse garoto. 
MULHER – ...
IDOSA – Aí eu quis te conhecer antes. 
MULHER – (rápida) Antes de quê? De morrer? Ai.  Desculpa.  Brincadeira.   Mas é que a senhora já tem uma certa idade né?  Aliás, desculpa eu perguntar mas quantos anos a senhora tem?
IDOSA – 85. E vc?
MULHER – Eu?
IDOSA – é.
MULHER – Eu tenho 62. Por quê?
IDOSA – Só?
MULHER – como assim só?
IDOSA – Você tem que se cuidar.  Você tá... tá mal.  (pra junior) Né não?
MULHER – Do que que ela tá falando? 
JUNIOR – Mamãe.  Eu e a Dona Nadir viemos aqui porque nós vamos precisar da sua ajuda. 
MULHER – Meu filho, por que que você tá fazendo isso comigo?
JUNIOR – Isso o quê mamãe?
MULHER – O pessoal da sua academia sabe desse... desse namoro de vocês?
JUNIOR – sabe.  A dona Nadir é da galera.  Ela treina lá com a gente. 
IDOSA – Depois do meu jogging. 
MULHER – Você treina o quê?
IDOSA – Jiu jitsu. 
JUNIOR – Dona Nadir é faixa roxa. 
IDOSA -  Você devia praticar também, tá tão fraquinha. 
MULHER -  Sei.... E o que o pessoal do jiu jitsu tá achando desse namoro de vocês?
JUNIOR – Mamãe esse é um assunto meio chato.
MULHER – Ué, chato por quê? 
IDOSA – O Júnior brigou com o Marcão.  
JUNIOR – Não era para falar amor. 
IDOSA –  Por minha causa. 
MULHER – Eu imagino.  
JUNIOR –  Ele deu em cima da Dona Nadir.
IDOSA –  Foi. Ele me apertou no tatame. 
MULHER – Ele o quê? 
IDOSA –  É que uso um collant muito justo, sabe? 
JUNIOR – Já falei pra você não usar mais esse collant. Jiu jitsu se treina é de kimono gatinha. De kimono.
IDOSA – Ele implica com o meu collant, esse menino. Que coisa! 
MULHER –  Collant?  Escuta, a senhora não acha que você e um Júnior são um pouco... um pouco diferentes? 
IDOSA – Você fala assim em relação a ele não gostar do Roberto Carlos? 
JUNIOR – Mamãe, a gente vai ter um filho.
MULHER –   Quê? Como assim?
JUNIOR – Ter um filho mãe.  A gente vai formar a nossa própria família não é gatinha? 
IDOSA – É, broto.  
MULHER –  (tempo)  Desculpa, mas a senhora pretende ter filhos como Dona Nadir? Como?
JUNIOR – A gente vai fazer inseminação artificial.
MULHER – Nela?
IDOSA – Mas aí já pensou se vêm gêmeos?  Daí eu achei melhor conhecer a senhora.
MULHER –  Você.  Me chama de você.
IDOSA –  Que eu preciso saber se você vai dá conta, né? 
MULHER – Dá conta de quê? 
IDOSA – De cuidar das crianças ué.  Se  vierem duas.  Que criança é um rojão.  Imagina duas de uma vez? 
JUNIOR – A gente vai querer deixar as crianças com você de vez em quando, mamãe. A dona Nadir é muito ocupada. 
IDOSA – Eu não quero atrasar a minha vida profissional, sabe? 
JUNIOR – A dona Nadir precisa ter certeza de que vai poder contar com a senhora mãe.  
IDOSA  -  Não sei não, Júnior.  To achando ela já meio passada pra ser avó.  
MULHER – Eu ouvi.  
IDOSA – Então. Eu to achando melhor a gente deixar as crianças com a minha mãe. 
MULHER – Você ainda tem mãe?
JUNIOR  – A mãe da Dona Nadir é engenheira de computação.  Ela mora lá no vale do Silício.  
MULHER –  Ela é o quê?     
JUNIOR -   Ela desenvolve novos programas pra Apple. 
IDOSA - E eu to me formando ano que vem.  Cirurgiã Oftalmo.  Eu quero operar catarata.  Que tá cheio de menina aí de 70 e já cheia de catarata.  Vou ganhar uma soma. 
JUNIOR – A gente vai precisar da sua ajuda pra cuidar das crianças.   
MULHER –  Ai, eu não to bem.   (senta) 
IDOSA – Olha Júnior, não sei não.... Ela é muito desmilinguida, olha aí. 
JUNIOR – Mas meu amor...   
IDOSA –   Pra ser avó tem que ter energia, sabe?  Acho melhor a gente adiar um pouco esse nosso projeto. Pelo menos até eu me formar. 
JUNIOR – Mas Dona Nadir...
IDOSA – A gente tem que ser responsável Júnior.  Pra ter filho é preciso toda uma estrutura por trás.  Eu não acho que a sua mãe vai dar conta.
MULHER – Água meu filho. Me dá água! Anda! 
IDOSA –   Olha aí, num falei?  Bom, eu já vou broto, que tá na hora do meu cassino.
JUNIOR – Mas Dona Na/
IDOSA -  Depois a gente conversa.   (pra mulher) Melhoras, viu? A senhora devia fazer um boxe, um karatê.  Toma um leite.  (pra junior) Já vou. (beija-o) Gostoso! (sai)  
JUNIOR – (dá copo) Poxa, mamãe. 
Fim 


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Segundo lugar: Com ou sem?


Com ou sem? - de César Amorim

NO RESTAURANTE...
AMANDA (ao telefone) – Tou esperando ele, amiga. Adorei a sugestão do lugar. Nenhuma mulher hétero à vista. Perfeito. Das últimas vezes só me dei mal. Tou na secura há meses. Dessa vez, vai. Beijo. 
GARÇON – Com licença. A senhora já quer fazer o seu pedido?
AMANDA – Não, querido. Estou esperando uma pessoa. Pessoa que digo é um homem, tá? Pra você não pensar que falei pessoa só pra não dizer que é outra pessoa do mesmo sexo, afinal aqui é um bar gay.  Marquei aqui porque sei que não terei concorrência. Ele é hetero e tal.  Aprendi isso com uma amiga lésbica. É um encontro, sabe? Nosso primeiro.  
GARÇON – Que bom. Vou deixar o cardápio com a senhora e assim que seu companheiro chegar eu volto. Fique à vontade.
AMANDA - Pode deixar, vou ficar à vontade. Com crase e tudo. 
GARÇON SAI. HUGO, UM HOMEM BONITO, ENTRA.
HUGO – Amanda?
AMANDA – Hugo! Que maravilha!
HUGO – Achei que fosse chegar antes que você.
AMANDA – É que vim fazer umas compras e tava aqui perto e resolvi ficar e tal. Veja bem, não tou ansiosa, de maneira alguma. Mas, parabéns, você foi pontualíssimo. Adorei.
HUGO – Eu “naisci” pontual.
AMANDA – Oi? O que você disse?
HUGO – Que “naisci” pontual. É de “naiscimento”.
AMANDA – Ah, tá! Uma piada. Tá imitando alguém que fala assim. 
HUGO – Assim como?
AMANDA – Deixa pra lá. Entendi. Sério. Foi engraçado. 
HUGO – Não conhecia esse “restorante”. É novo?
AMANDA – Esse o quê?
HUGO – “Restorante”. Esse lugar aqui.
AMANDA – Não, não é novo. Também não conhecia. Foi uma amiga quem indicou. Me diz uma coisa: você é o Hugo mesmo? Aquele que conversava comigo no Skype e tal?
HUGO – Ué? Tá me “instranhano”. Num tá vendo não? Igualzinho que nem na foto lá. Que nem na cam.
AMANDA – Pela foto e pela cam é você sim. É que não conversamos com áudio, né? Você só escrevia. E escrevia tão bem. 
HUGO – É verdade. Você “inté” que me “ilugiou”.
AMANDA – Você tá meio diferente pessoalmente. Falando estranho... É brincadeira, né?
HUGO – Não, eu falo assim mesmo. Num gostou da minha voz? 
AMANDA – Não. Você tem um timbre bonito. É que lá você falava tanta coisa legal. Tou só estranhando. Pensei que você ia me falar aquelas coisas lindas que você escrevia.
HUGO – Ah, aquilo tudo é “control C”, “control V”. 
AMANDA – Oi?
HUGO – Copia e cola. É tudo do Google. Num sei falar aquelas coisas bonitas não. 
AMANDA – Quer dizer que você me enganou?
HUGO – Não! Tudo o que eu falei lá era o que eu queria falar pra você, mas não ia ficar tão bonito com minhas “palavra”, entende? 
AMANDA – Que decepção, meu Deus. Mais uma.
HUGO – O que foi que fiz, gata?
AMANDA – Nada. Aí é que está. Você não fez nada. E isso é tudo. Você é todo errado. 
HUGO SE LEVANTA.
HUGO – Foi mal. Vou nessa.
AMANDA – Espera. Você é um gato. Que desperdício. Faz o seguinte: me diz uma coisa, só uma e posso perdoar tudo o que você falou até agora. 
HUGO – Manda.
AMANDA – Basta responder isso e eu perdoo tudo e a gente sai direto daqui pra um motel. Topa?
HUGO – Gata, tá brincando? Só tou aqui pra te levar pro motel. E olha que a grana tá curta. 
AMANDA – Eu pago tudo. Se você acertar, pago tudo. Me diz. Na frase “eu vou à praia” tem ou não tem crase?
HUGO – “Crasse”? Olha, depende da praia, né? Se for em Ramos, por exemplo, não tem “crasse” nenhuma. Agora, se for no Leblon já é outra história. Lá é “crasse” alta, né?
AMANDA – Crase! C-R-A-S-E! Não falei classe! Por favor, levante-se dessa mesa e vá embora. Você é uma fraude!
ENTRA O GARÇON.
GARÇON – Já querem fazer o pedido?
AMANDA – Eu quero! Esse senhor não! Ele já está de saída. 
HUGO – Você é maluca, gata! Maluquinha! Vai se tratar! Uma pena. Te gostei de verdade, sabia?
AMANDA – Vai à merda! Com crase e tudo!
HUGO SAI.
GARÇON  (constrangido) – Quando precisar de mim...
AMANDA – Eu preciso. Desculpe. Ele definitivamente era a pessoa errada. Deixa eu olhar o cardápio... Nossa. Tudo tão bem escrito. Raro ver um cardápio assim. Sem nenhum erro de português. Dê os parabéns ao dono do restaurante por mim. 
GARÇON – Quem agradece sou eu, senhora. Eu mesmo escrevi o cardápio. Já fui professor de português.
AMANDA – Não brinca! Você?
GARÇON – Sim. Trabalhava em Minas, ganhava uma miséria, daí vim pro Rio, fiz um curso no Senac de garçon e tou aqui agora. Ainda faço tradução e tou escrevendo um livro.
AMANDA – Olha, me deu até um calor, sabia?
GARÇON – Oi?
AMANDA – Senta um pouquinho comigo.
GARÇON – Não devo fazer isso...
AMANDA – Ah, o restaurante tá praticamente vazio. Só um minutinho. Queria te pedir uma coisa.
GARÇON SENTA.
AMANDA – Você tem papel e lápis, né? Então, queria que você escrevesse uma coisinha pra mim. 
GARÇON – Sim, senhora.
AMANDA – “Eu vou à praia”.  
GARÇON – Eu vou à praia?
AMANDA – Isso. Escreve. E escreve também “eu vou a Roma”.
GARÇON – Ok. Prontinho.
AMANDA – Deixa ver. Certíssimo. Por que você vai à praia com crase e a Roma sem?
GARÇON – Porque o verbo “ir” exige a preposição “a”e a palavra “praia” exige o artigo “a”. Na junção das duas, ocorre a crase. Já na segunda frase, a palavra “Roma” não exige artigo, então o “a” é só preposição, não tem crase. Entendeu?
AMANDA – Eu tive um micro orgasmo agora. 
GARÇON - Perdão?
AMANDA - Você é casado?
GARÇON – Não. 
AMANDA – Delícia. Tá carente?
GARÇON – Um pouco.
AMANDA – Eu também. Rola alguma coisa comigo?
GARÇON – Desculpe. Comigo só rôla.
AMANDA – O quê?
GARÇON – Rôla. Pau. Cacete. Pênis. Entendeu? Sou gay, mona.
AMANDA – Quer saber? Foda-se a crase. Foda-se o português. Tou precisando de um homem, no sentido macho da palavra. Com licença.
AMANDA FICA DE PÉ.
AMANDA – Hugo!! Se você ficar caladinho, a gente transa!! Eu me dou a você. Sem crase!!
E SAI CORRENDO.

FIM