segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Palhinha da semana passada - dia 04/11 - tema: COMIDA

COZINHADO COM VOCÊ
De Claudio Torres Gonzaga

CENARIO DE UM PROGRAMA DE CULINÁRIA. UMA MESA. UMA FRIGIDEIRA ENORME (PODE SER A TAMPA DE UM LATÃO, QUE DEVE ESTAR ESCONDIDA), UM QUADRO NEGRO, UM TERMOMETRO AL;SKD VINHETA DO PROGRAMA.
VOZ OFF
E agora A cozinha fácil do Grande chef da cozinha catalã e mediterrânea Felipe Bertrand de la Croix Noiret.
CHEF ENTRA NO CENÁRIO. (SE O ATOR FOR CAPAZ DE FAZER UM BOM SOTAQUE FRANCÊS, VAI FICAR MELHOR. CASO CONTRÁRIO É MELHOR FAZER SEM SOTAQUE.
CHEF
Bom minha querida dona de casa, estamos começando mais um A cozinha fácil do Grande chef da cozinha catalã e mediterrânea Felipe Bertrand de la Croix Noiret. Como vocês sabem o nosso programa valoriza as receitas simples. Aquela comidinha do dia a dia. Receitas pra facilitar a sua vida. Hoje vamos aprender a fazer um ovo frito. Parece simples. E é simples, mas com algumas dicas e o equipamento certo você vai extrair o máximo prazer que um ovo frito pode proporcionar. Primeiro a frigideira certa. Para ovo ficar no ponto certo a frigideira deve ter 86.8 centímetros. (pega a frigideira) Claro que pode ser um pouco mais ou um pouco menos... 86.6 ou 86.9... tudo bem. Dá pra quebrar um galho. Se for outra medida o ovo vai se sentir sufocado. Como se ele nunca tivesse saído de dentro da galinha. Um ovo estressado. E ninguém quer comer um ovo estressado, certo? Depois é um importante calcular o centro preciso da frigideira pra que o ovo fique exatamente ali, para que o calor chegue uniformemente até ele. Isso é muito fácil. (vai até o quadro negro onde o gráfico já pode estar desenhado ou ele vai desenhando, mesmo que não faça muito sentido) Você só vai precisar de um compasso de arquiteto. Você traça a circunferência da frigideira, estabelece dois arcos de circunferência, dividir cada um em duas partes, traçar uma perpendicular ao ponto tangente de cada arco, prolongar as duas retas. O encontro dessa duas retas determina o centro da frigideira. Fácil, não é? Depois é só quebrar o ovo em cima desse ponto central. Claro que pra isso você precisa calcular a distancia entre o ovo e a frigideira levando em consideração a gravidade e viscosidade combinadas de clara e gema e o atrito. Mas isso eu não preciso demonstrar porque qualquer dona de casa sabe. Vamos averiguar a temperatura da frigideira, que não deve ser menos 79 graus, nem mais que 81. É só colocar um termômetro industrial de frigideira e deixar lá até ele atingir a temperatura ideal. Cuidado pois o termômetro não deve ficar bem passado e sim ao ponto. A quantidade de sal, essa sim, tem que ser precisa: 0.8 miligramas, ou se você preferir pode contar os grãos de sal: 202 grãos. Muito fácil. Agora nos já temos tudo pra fazer um legitimo e simples ovo frito: (vai mostrando as coisas) frigideira de 86.8 centímetros, um quadro negro, uma calculadora, um termômetro industrial, sal e... (procura o ovo) Uê cadê o ovo... devia estar aqui... Bom o ovo é só um detalhe. Semana que vem vamos fazer um bife. Preparem seus maçaricos. Até lá.

VINHETA DE ENCERRAMENTO.

FIM

Vídeo da Cena





O PERU
De Ivan Fernandes

1.

Mendes e Costa estão em um aviário. Olham as várias aves.

M – Mas é isso é que eu não entendo, Costa. Por que não comprar um peru congelado, como todo mundo faz?

C – Minha mulher diz que não é a mesma coisa. Meus sogros vão chegar do norte e ela quer impressionar na ceia de natal. E não dá pra discutir com minha mulher.

M – Mas por que tu me chamou aqui? E eu lá vou saber escolher um peru?

C – Mas vai me ajudar a carregar. Olha o tamanho do bicho.

M – Esse lugar parece um campo de concentração.

C – Eu não quero condenar ninguém à morte. Mas não dá pra discutir com minha mulher. Escolhe um aí.

M – Eu não. A ceia não é minha. A mulher não é minha.

C – Pra mim parecem todos iguais. (tapa os olhos) Mi – nha – mãe – man –dou – eu – es – co – lher – es – se – da – qui. (abre os olhos e olha pra ave apontada) É, meu amigo. Sobrou pra você. Até o natal tu vai ter uma vida de rei. Vai comer melhor do que eu. Vai ficar gordo. Depois... bom, depois da tempestade vem a bonança. Quer dizer, é ao contrário. (para o funcionário) Pode embrulhar. Vou levar esse aqui. Ah, não embrulha?


2.
Os dois carregam o peru pela rua.

M – Pô, Costa. Nem pra trazer o dinheiro do táxi?

C – E qual táxi ia aceitar a gente? Se nem no ônibus deixaram subir... anda, só falta uns dois quilômetros...

M – Mas tá um sol da porra... até o peru tá com os bofe pra fora. Bem que a gente podia parar pra tomar uma geladinha. Refazia as energias, e continuava.

C – Mas a minha mulher tá esperando o peru.

M – Uma só. Na sombra.

C – Então tá. Uma só, hein? Eu não quero discussão com a minha mulher. (sentam-se) Ô Bigode! Traz uma aê! E se a gente pedir mais uma, não sirva!

M – (para a platéia) Cerveja 1, cerveja 2, cerveja 3. (para Costa) Vamos pedir a conta?

 C- Ô Bigode! A saideira e a conta.

M – (para a platéia) Cerveja 7, cerveja 8, cerveja 9. (para Costa) Eu acho que esse peru tá meio estranho.

C – Parece meio triste.

M – Ânimo, peru!

C – Mas olha o que a gente tá fazendo. A gente é sem educação. Só a gente é que bebe. Ele deve tá triste porque a gente não ofereceu nada pra ele.

M – Que mancada!

C – Ô Bigode, traz uma branquinha aqui pro peru.

M – (para o peru) Tu gosta de whisky?

C – (para a platéia) Cerveja 12, cerveja 13, cerveja 14. (para Mendes) Ih, Mendes!

M – Que foi?

C – Hoje é a final do Mengão, esqueceu?

M – Puta que pariu! Vamo levar esse peru logo! Se não a gente não chega no Maraca a tempo!

C – Tá louco? Se eu aparecer na frente da minha mulher nesse estado, ela não vai me deixar ir ao jogo! E não dá pra discutir com a minha mulher. É melhor a gente ir ao jogo e depois levar o peru.

M – Mas como é que a gente vai entrar no Maraca com ele?

C – Ué, não deixam entrar urubu?

M – Isso foi antes.

C – A gente disfarça. Põe uma camisa do Flamengo nele e um óculos escuros. Ninguém vai notar.

M – Mas eu não aguento carregar ele até lá.

C – Ô Bigode! Arruma aí um carrinho de mão! E a conta! E a saideira!


3.
No Maraca. Narração de rádio de um gol do Flamengo. Som de torcida gritando gol. Costa e Mendes gritam e comemoram o gol do Flamengo, levantando o peru no ar.

C e M – É campeão! É campeão!

Ouvimos uma bateria de escola de samba. Eles sambam com o peru.

C – Pô, peru! Tu é o maior pé-quente.

 M – Tu é sangue bom. Pena que vai pra panela.

C – Eu não posso. A gente não pode fazer isso com ele.

M – A gente não. A ceia é tua, a mulher é tua.

C – Não é justo. Que vida que esse peru conheceu? Ficou preso naquele aviário e só. O que ele conhece do mundo? Ele ainda tem toda uma vida pela frente. Quanto tempo vive um peru?

M – Duzentos anos.

C – Isso é tartaruga.

M – Ah, é.

 C – Tanto faz. E agora tá condenado a morrer por causa de uma tradição idiota.

M - (para o peru) Eu nem gosto da sua carne. Eu nunca comi nenhum parente seu no natal.

C – Você não entende? Esse peru é um símbolo da gente. Que vida que a gente conhece? O que a gente conhece do mundo? Quanto tempo a gente ainda tem de vida?

M – Duzentos anos.

C – Isso é tartaruga.

M – Ah, é.

C – A gente precisa de um ato heróico. Algo que dê significado à nossa vida! Liberdade para os perus! Nós vamos jogar ele aqui de cima do Maraca.

M – Hein?

C - Tu não lembra quando eles soltaram um urubu que passou voando no campo?

M - Mas era um urubu, não era um peru.

C - É tudo a mesma coisa.

M – Então primeiro tira a faixa de campeão dele.

C – E a camisa também.

M –Mas é o manto sagrado!

C – Como é que ele vai voar de camisa? Prejudica a estrutura dos ossos. O movimento, entendeu?

M – Mas a gente vai soltar ele pra onde? Ele não tem pra onde ir!

C – A gente vai soltar ele de volta na natureza! Lá tem tudo que ele precisa!

M – Que natureza? Onde é que tem natureza por aqui? E tu já viu algum peru andando na natureza?

C – Por isso mesmo! Todos eles estão presos! A gente precisa sensibilizar as pessoas.

 M – Tá bom, mas e a tua mulher? Ela não vai se sensibilizar.

C – Justamente! Dane-se! Eu não obedeço mais! Ninguém! Vou aprender com os perus a ser livre!

M – É isso aí! Liberdade para os perus!

C – Me ajuda a desamarrar as pernas dele. Muito bem. (para o peru) Não precisa agradecer, amigo. Um dia a gente vai ser lembrado por isso, Mendes. (se prepara para arremessar o peru)

M – Peraí! Pra que lado tá o vento?

C – Isso importa?

M – Deve importar.

C – Tu já viu algum passarinho molhando a ponta da asa no bico e esticando pra sentir a direção do vento?

M – Não.

C – Então é porque não tem importância nenhuma.

 M – (para o peru) Olha, tu se esconde aí em algum lugar até passar o natal. Depois a barra fica mais tranquila.

C – É isso aí! Agora voa peru! Voa pra liberdade!

(jogam o peru. Acompanham com a cabeça o peru despencar e se arrebentar lá embaixo. Olham-se frustrados)

C – (desolado) Pô! Peru não voa?





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