domingo, 18 de outubro de 2009

Palinha do espetáculo de quarta passada - dia 14/10 - tema Novela


ATUAR NÃO
de Renata Mizrahi
tema: novela (clube da cena)

Um casal de atores. Eles estão juntinhos. Ela tenta encontrar a melhor hora para começar uma convesa
Lu: Rob, a gente tá precisando conversar sério.
Rob: Isso. Continua.
Lu: Continua o quê?
Rob: Você tá indo muito bem.
Lu: É mesmo?
Rob: Vai. Continua.
Lu: Então, Rob, eu acho melhor a gente parar por aqui.
Rob: Assim você vai arrasar.
Lu: Arrasar?
Rob: Genial, continua.
Lu: Rob, Rob, você tá ouvindo o que eu tô falando?
Rob: Esse é o tom. Esse é o tom.
Lu: Que tom, Rob? Do que você tá falando?
Rob: Meu amor, você vai arrasar.
Lu: Arrasar o quê, meu Deus?
Rob: Você é a melhor atriz que eu conheço.
Lu: Ah! Me escuta, por favor. Eu quero terminar com você. Eu não tô atuando. Você acha que eu não tô falando sério? EU TÔ FALANDO SÉRIO!
(silêncio)
Rob: É sério?
(silêncio)
Lu: Ah, brincadeira! Não!! É serio.
Rob: É sério ou não é serio?
Lu: É serio. É serio, é que foi no timing, eu não podia perder o timing.
Rob (exagerado): Não se separa de mim, não se separa de mim. E os nossos filhos, a nossa casa? Minha mãe que te adora?
Lu: Filhos, casa, da onde você tirou isso?
Rob: Gostou, né? Gostou. Vou gravar essa cena amanhã. Tá muito bom, né? Sinto que o meu personagem vai crescer muito. Depois que for ar, vai chover convites para comercial, você vai ver!
Lu: Não, Rob. Vamos parar com isso. Será que a gente não consegue não atuar pelo menos uma vez na nossa relação?
(silêncio.)
Rob: Essa pausa foi bem dramática.
Lu: É. Foi.
Rob: Se fosse ensaiado não ia ficar tão bom, né?
Lu: É.
Rob: Se soubesse que ia ficar tão bom, tinha até filmado pra gente colocar no you tube.
Lu: Vamos tentar retomar, Rob. Vamos tentar retomar.
Rob: Por que você quer tanto falar desse assunto? Você sabe do sentimento que eu tenho por você.
Lu: Rob pára de atuar, eu tô falando sério.
Rob: Mas eu não atuei, eu falei sério.
Lu (debochando): Tá, falou. E sabia que eu consegui o papel de estrela da próxima novela do Gilberto Braga?
Rob: Eu disse que você ia conseguir.
Lu: Rob, eu tô brincando.
Rob: Tá brincando por quê? Você tem mania de falar tudo brincando.
Lu: É você, Rob, é você que nunca fala sério.
Rob: Mas eu tô falando sério.
Lu: Caramba, Rob, fala sério.
Rob: O que você quer, Lu? Quer terminar é isso?
Lu: É Rob, eu quero terminar.
Rob: Então! Eu tô dizendo para gente não terminar, para gente tentar...
Lu: Rob, esse é o texto da sua próxima cena.
Rob: Finalmente eu consegui decorar.
(ela chora)
Rob: Não chora.
Lu: A gente não consegue ter um relacionamento de verdade.
Rob: Calma, amor, eu te amo de verdade.
(ela pára de chorar subitamente)
Lu: Consegui! Consegui!
Rob: O quê?
Lu: Consegui, Rob, consegui a técnica da lágrima. Viu como saiu lágrima de mim? Eu entendi a técnica, eu entendi! (Ela o abraça)
Rob: Então não vamos mais terminar.
(ela o afasta)
Lu: Não, Rob, não confunde as coisas.
Rob: Mas quem tá me confundido agora é você.
Lu: A gente tem que terminar. Desse jeito é impossível.
Rob: Não é impossível. Por que é impossível?
Lu: Rob, quando a gente tá na cama, eu nunca sei se quando você me diz aquelas coisas, é de verdade ou não.
Rob: É você que tá colocando coisas onde não tem.
Lu: É? Então diz que me ama de verdade. Sem atuar.
Rob: Eu te amo de verdade.
Lu: Tá vendo? Você não consegue.
Rob: Mas eu falei de verdade!
Lu: Mas eu não acredito mais em você. Vamos parar por aqui. Vamos acabar de vez com isso. Eu sabia que não ia dar certo namorar ator. Ainda mais que trabalha comigo na novela!
Rob: Deixa pelo o menos eu te abraçar.
Lu: De verdade?
Rob: De verdade.
(ele se abraçam)
Rob: E agora o que a gente faz?
Lu: Seria perfeito se a gente começasse a dançar como naquele filme “O último tango em Paris.”
(eles começam a dançar)
Rob: Tá vendo? Você também não consegue.
Lu: Isso não é vida, Rob.
Rob: Por que não? Por que não?
Lu: Eu admito, eu também tô presa nesse vício, mas eu quero dar um basta nisso.
Rob: O que podemos fazer?
(continuam dançando)
Lu: Rob, vamos nos proibir de atuar um com o outro. É a única coisa que podemos fazer.
Rob: Tudo bem. Eu não atuo mais com você. Nem você comigo.
Lu: Isso. Não podemos deixar que a nossa profissão seja mais forte que as nossas vidas, meu amor.
Rob: Você tem toda a razão.
Lu: Só assim poderemos realmente ser felizes e nos amar de verdade. Naturalmente.
Rob: Fala de novo, de novo.
Lu: O quê?
Rob: Repete o que acabou de falar, vai, por favor.
Lu: Mas a gente acabou de combinar!
Rob: Imagine que a câmara tá naquela direção. Repete o texto pra aquela direção, ok?
Lu: Rob, eu não acredito...
Rob: Por favor, please!
(ela faz na direção que ele pediu)
Lu: Assim poderemos realmente ser felizes e nos amar de verdade. Naturalmente.
Rob: Meu amor, você é tão boa atriz...
Lu: Você acha mesmo?
Rob: Sempre achei.
Lu: Não, não, não, não! Chega, chega! É tão insuportável.A gente não consegue, chega! Acabou. Adeus, Rob. Não dá! Adeus! (ela sai correndo. Ele fica)
Rob: Ó minha amada, não me deixa assim na escuridão, já que é a sua luz que alimenta minha alma. Como ficarei agora sem você, perdido num mar de desilusões? Meu corpo é como o fogo e você água que o apaga. Volte para mim, ó brisa serena, lua alva que me guia na noite sem fim. Sou eu, seu amor clamando desesperado. Não me abandones assim.
(ele percebe o que acabou de falar)
Rob: Caramba. Me superei. Mandei muito. Uau. Essa nem eu esperava. Vou mostrar pro autor. Quem sabe ele aumenta o meu papel e eu passe a ser o protagonista.
(Ele começa repetir o que acabou de fazer, pensando em várias formas de mostrar ao autor, animado com a possibilidade de seu personagem crescer. Esquece que foi deixado.)

FIM


Vídeo da Cena
 


___________________________________




PLIM PLIM 
De Ivan Fernandes


(batidas de Moliére. Entra Romeu)

R – Mas silêncio! Que luz se escoa agora da janela? Será Julieta o sol daquele oriente? (entra Julieta) Surge, formoso sol, e mata a lua cheia de inveja, que se mostra pálida e doente de tristeza, por ter visto que és mais formosa do que ela.

(ouvimos um plim plim)

R - Pô Julieta, tá o maior sol! Vamos pegar uma praia? (tira a camisa, revelando uma barriga-tanquinho, de plástico ou papelão, colada sobre a barriga do ator)

J - Ih, qual é, Romeu? Tu é do núcleo pobre da novela! Nunca que os meus pais vão deixar a nossa relação acontecer.

R - Mas se a gente der ibope, eu garanto que eles deixam. É só o público torcer pela gente. Afinal, eu sou o galã e você é a...

J - Olha...

R -...Galoa. Mas você tá com muita roupa pro horário, Juju; assim não dá ibope.

J - Você acha? Exagerei?

R - Você não vê a novela da concorrência? Se passa numa praia. O que é que se usa numa praia?

J - Ah, é por isso que passaram nossa cena pra luz do dia? Mas isso não faz sentido. Você não entra aqui escondido pelas trevas da noite? Como é que ninguém te viu, então, com esse baita sol?

R - Não faz pergunta difícil. O importante é que a gente vai à praia. Praia dá ibope.

J - Dá ibope pra você que só precisa tirar a camisa. Mas você acha que alguma mulher acorda com esse cabelo? Calcula a hora que eu tenho que chegar na sala de maquiagem.

(batidas de Moliére)

J – Ai de mim!

R – Oh, falou! Fala de novo, anjo brilhante!

J – Romeu, Romeu! Meu inimigo é apenas o teu nome. Mas o que é um Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença ao corpo. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob outro nome teria o mesmo perfume.

(plim plim)

R - Pô, mas tu fala muito, garota. Bora se beijar logo.

J - Você acha que eu quero compromisso com pobre? Eu visto de Prada pra cima, meu amor. Sente as jóias. Vai bancar? Acha que eu vou topar ser garçonete? Balconista? Operadora de telemarketing? Olha essa mansão. Consegue ver onde ela termina? Pra eu sair da casa do papai só pra ir pra uma igual.

R - Pô, mas tu é muito exigente. E cadê o amor?

J - Amor é o caralho. Quero vida de princesa.

R - Pô, assim pegou pesado. Ficou forte. Pra esse horário não vai passar esse diálogo não.

J - É fácil. A gente põe um funk. (entra uma base funk. Canta) Amor é o caralho / quero vida de princesa (dançam funk até o chão, etc. depois de um tempo, julieta sinaliza para o fim da música ) Pronto. Agora virou cultura popular.

(batidas de Moliére)

R – Senhora, juro pela santa lua que acairela de prata as belas frondes de todas essas árvores frutíferas...

J – Não jures pela lua, essa inconstante, que seu contorno circular altera todos os meses, pra que não pareça que teu amor, também, é assim mutável.

R – Pelo quê devo jurar?

(Plim plim)

J - Jure pelo novo cartão de crédito do banco Rosemberg! (tira do vestido e mostra) Só ele dá 60 dias pra pagar. Com ele, você pode me dar uma vida de princesa, amor.

R - Puxa, mas será que um cara pobre como eu poderá ter um cartão de crédito do banco Rosemberg?

J - Mas é claro! O cartão de crédito do banco Rosemberg é aberto a todos os tipos de deficientes. Adquira já o seu!  (joga o cartão para ele)

(batidas de Moliére)

VOZ DAS COXIAS – Julieta!

J – Romeu querido, só mais 3 palavrinhas, e boa noite. Se esse amoroso pendor for honesto, amanhã cedo me envie uma palavra pela pessoa que eu te mandar, dizendo quando e onde pretende realizar o casamento, que a teus pés depositarei minha ventura, para seguir-te pelo mundo todo como senhor e esposo.

(Plim plim)

R - Mas casamento é só no último capítulo!

J - Não, idiota. No último capítulo a gente morre.

R - O quê??

J – Você não leu o script não?

R – Mas eles não podem nos matar! Nós somos o casal de maior apelo! Quero falar com meu agente agora! (pega um celular e liga) Alô, Pontes! Que história é essa? (ouve) Ah... (ouve) Ah... (ouve) Então tá. (desliga. para Julieta) Viu? Nós vamos gravar um final alternativo passando a lua de mel em São Lourenço.

J –  São Lourenço?! Que coisa mais ultrapassada! Eu quero Miami.

R – Miami não cabe no meu bolso, nem. E as pesquisas mostram que o público quer ver você no núcleo pobre.

J – Ah, não. Dançar funk foi a minha última concessão.

(batidas de Moliére)  

VOZ NAS COXIAS – Julieta!

J – A que horas devo mandar alguém para falar-te?

R – Às nove horas.

J – Sem falta. Só parece que até lá são vinte anos. Esqueci-me do que tinha a dizer.

R – Deixe que eu fique parado aqui, até que te recordes.

J – Então eu continuaria esquecendo, só pra que ficasses aí parado, me lembrando de como adoro tua companhia.

R – E eu ficaria, pra que esquecesses sempre...

(plim plim)

J – Eles ficam esticando muito a história, dá nisso. A gente não tem mais nada pra dizer. Tremenda barriga!

R – Quê isso, gata! Barriga aqui só a minha! (estufa)

J – Como é que a gente encerra o bloco? Já tá quase na hora do comercial.

R – Fácil. Chega de papo. Põe aquele teu biquininho e desce.

J – Mas o meu pai tá chamando!


R – Ele vai ter que se render à força do ibope.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Sorteio para semana que vem, quarta, 21/10 - Tema: VIZINHO

Na semana que vem, o Clube da Cena apresentará 7 cenas diferentes sobre o tema VIZINHO.

Para isso, o elenco TERRA foi dividido, através de sorteio, em 7 duplas. E cada dupla ficará responsável por transformar em cena cada um dos 7 textos escritos.

Veja abaixo o resultado do sorteio.

Autor                 -                     Atores

Cristina fagundes - Renato Albuquerque e Mariana Santos
Leandro Muniz - Fernanda Baronne e Priscila Assum
Ivan Fernandes - Marcelo Dias e João Rodrigo
Fábio Porchat - Mari Consoli e Cláudio Amado
Cláudio Torres - Raul Franco e Thaís Lopes
Oscar Calixto - Zé Auro e Bia Guedes
Rogério Jordão - Bruno Balthazar e Elisa Pinheiro

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Chance para autores - tema: COMIDA

Atenção!

O Clube da Cena está abrindo oportunidade de participação para dramaturgos de todo o Brasil.

Para participar, basta enviar um texto de até 7 minutos de duração sobre o tema COMIDA até segunda, dia 19/10, mencionando o nome da cidade e Estado.

Os textos selecionados serão encenados e os seus autores receberão 1,5 % do bruto da bilheteria do dia.

Aguardamos vocês!

email: cris1@ism.com.br

sábado, 10 de outubro de 2009

Palhinha do espetáculo passado - quarta, 07/10 - Tema: FÉ


TEXTO É QUE NEM FILHO. PRIMEIRO A GENTE FAZ, DEPOIS A GENTE DÁ O NOME
Leandro Muniz


Padre Flávio Alberto está em sua sacristia. Entra uma jovem mulher, Joana.
Padre é muito sério, principalmente de início, e embora fale barbaridades, não é afeminado.

JOANA
Padre?

PADRE
Joana.

JOANA
Desculpe padre, entrar assim desse jeito.

PADRE
Você podia ter entrado dando uma cambalhota, seria mais criativo. Mas não faz mal.

JOANA
O que padre?

PADRE
Brincadeirinha.  Fiz piada, entendeu?

JOANA
Entendi.

PADRE
Sou padre, mas também sou filho de Deus.

JOANA
Sim

PADRE
Tá vendo como eu sou engraçado?

JOANA
Claro, o senhor tem ótimo senso de humor.

PADRE
Senhor está no céu. Aliás, ele ( aponta pra cima) também tem senso de humor.

JOANA
Acha mesmo padre?



PADRE
Claro, não acha muito engraçado por exemplo, quando a igreja católica propõe que o amor conjugal tenha uma fidelidade inviolável! Não é patético Joana?

JOANA (espanta-se)
Mas padre...

PADRE
Ahá! Piadinha de novo!

JOANA ( ri desconcertada)
Nossa, que susto! O senhor é mesmo muito espirituoso.

PADRE
Me chame de Flávio, apenas Flávio Alberto. Flávio Alberto de Almeida. Flávia Alberto de Almeida, o cantor apenas. Diga.

JOANA
Flávio Alberto.

PADRE
De Almeida, o cantor...

JOANA
De Almeida, o cantor.

PADRE
Adoro isso.

JOANA
Padre, vim lhe falar...

PADRE
Adoro ser chamado de “O cantor”, ou “Aquele padre que canta”, ou somente “ Padre Flávio”, ou  ainda “O da canção: Levanta essa batina e vem pra festa”. Desculpe, você falava...

JOANA
Ah, sim padre, venho lhe falar de algo que tem acontecido entre mim e meu noivo.

PADRE
Sim Joana, seu noivo, me lembro.  Otávio não é?

JOANA
Isso padre.

PADRE
Uma delícia.


JOANA
Como?

PADRE
Como. Uma delícia de companhia, um rapaz do bem, mas você falava...

JOANA
Sim, padre Flávio (pausa, e depois fala entediada) Alberto de Almeida, o cantor. Tenho vivido conflitos que estão tirando o meu sono. É difícil resolver, pois minha família mudou-se recentemente, todos sabem, estou só e sinto falta de minha prima, com quem eu dividia minhas questões...

PADRE
A Margareth?

JOANA
Sim

PADRE (como se lembrasse com leve tesão)
Hum...

JOANA ( nervosa)
Ela sempre me dava conselhos quando os rapazes iam longe demais. Essa cidade tem paredes que têm ouvidos, todos se conhecem, não sei mais em quem confiar!

PADRE
Entendo perfeitamente devotada Joana, mas acalma teu coração. Não sabes que estou sempre aqui, se você quiser, e vier, pro que der e vier contigo Joana? Jesus disse em voz alta diante do túmulo de Lázaro: “Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei com vocês e terei que suportá-los? Traga-me aqui o seu filho”. Lucas, capítulo nove, do versículo trinta e sete ao quarenta e um.

JOANA
E o que quer dizer padre?

PADRE
Não sei. Mas é uma passagem que gosto bastante.

JOANA
Entendi.

PADRE
Gosta bastante do seu namorado Joana?

JOANA
Noivo. Claro padre.

PADRE
Otávio né?


JOANA
Sim

PADRE
Uma “coisa” aquele menino... Mas você falava...

JOANA
Sim padre, dizia que tenho dúvidas quanto a conduta de Otávio. Ele anda estranho, extremamente carinhoso, mas apressado, querendo tirar de mim a todo custo... O senhor sabe...

PADRE
A roupa?

JOANA
Eu ia dizer inocência.

PADRE
Que seja. Joana. Joana, responda com sinceridade : Acredita mesmo que ele...


Entra Sacristão.


SACRISTÃO
Desculpe padre, não sabia que estava ocupado.

PADRE
Não se preocupe. Conhece Joana?

SACRISTÃO
Não sei.

PADRE
Namorada de Otávio.

JOANA
Noiva.

SACRISTÃO
Ah sim, Otávio? Hum...

PADRE
Rapaz galante, Joana tem bom gosto.

SACRISTÃO
Quer que eu volte outra hora?


PADRE
Não. Joana se importa que ele fique?  Não vai demorar.

JOANA
Não, de forma alguma.

PADRE
Ótimo. Você falava... Ah sim, que ele tirou sua roupa.


Sacristão começa a massagear Padre.


JOANA
Não padre! Você disse isso.

PADRE
Prossiga, prossiga.

JOANA
Acho que Otávio tem uma pressa em acelerar as coisas, e a igreja católica é clara quanto ao sexo fora do casamento.

PADRE
Ai, mais pra baixo...

JOANA
Perdão?

PADRE
Falei com ele. Prossiga, prossiga, que delicia esse dedão! Mais pra baixo. Aí, pára aí, ai que dor na lombar... Continue Joana.

JOANA
A verdade é que não sei se o amo, entende?

PADRE
Mas sente tesão?

JOANA
O que padre?!

PADRE
Devota Joana, acalma seu coração.  Afinal, o rapaz é um gostoso, não é Almeida?

SACRISTÃO
É sim senhor.

PADRE
Pode ir Almeida. Você já contribuiu bastante.

SACRISTÃO
Te espero lá em casa as onze?

PADRE
Não vou poder. Hoje tenho ensaio. Farei participação no show da banda Chocolate Sensual. Mas mande um beijo pros rapazes, em especial pro Fabão.

SACRISTÃO
Benção padre.

PADRE
Deus te abençoe Almeida.


Sacristão sai.


PADRE
Essa minha lombar, sei não. Os shows têm sido muito cansativos.

JOANA
Aliás parabéns, padre. Suas missas estão cada vez mais criativas.

PADRE
Obrigado.

JOANA
O senhor não tem medo de ficar pendurado no Santo Antônio?

PADRE
Já estou acostumado.

JOANA
O uísque em vez do vinho também foi uma novidade.

PADRE
Esse povo precisa experimentar coisas novas.

JOANA
Mas confesso que fiquei um pouco agoniada hoje quando o senhor usou aqueles malabares com fogo.

PADRE
Gosta de fogo Joana?

JOANA
Acho bonito padre.


PADRE
Joana, então se gosta, deixe o fogo se espalhar Joana!

JOANA
O que?

PADRE
Espalhar por esse corpo, que arde, que pulsa, quando o Otávio enfia as mãos nessas tuas coxas...

JOANA
Padre o que é isso?

PADRE (aproximando-se de Joana)
Quando ele toca nesses mamilos, lambe seu pescoço, e acaricia essa pele sedenta!Admita! Você está doida para ser possuída por esse desejo, Joana! Não lute contra ele! Viva, Joana! Viva esse amor! Mesmo que seja só sexo! Goze Joana!

JOANA
O senhor está louco! Afaste-se de mim!

PADRE ( sacode- a, segurando pelos braços)
Você precisa regozijar! Regozijar! E deixe o rapaz regozijar em você também!

JOANA
Socorro!

PADRE
Joana, eu me lembro como se fosse hoje. Eu e meus primos, correndo suados pelas ruelas da cidade. Aquela noite fria, num trecho escuro, saltitava extasiado... De repente tropecei numa pedra, e quando dei por mim, já tinha dado. A vida Joana, é pra ser vivida!

JOANA
Me larga!

PADRE
Quem nunca fez uma “meinha”?

JOANA
Larga!

PADRE
Uma suruba, uma pegação numa sauna...

JOANA
Socorro!

PADRE
Um botox, um boquete numa devota! Você gosta do meu botox, Joana?
JOANA
Padre nojento, me larga!

PADRE ( deitando Joana e fazendo movimentos pélvicos em cima dela, cantarola)
Levanta essa batina e vem pra festa! Levanta essa batina e vem pra festa!

JOANA (desvencilhando-se de Padre)
Seu tarado miserável! Eu nunca mais volto aqui! Desgraçado!


Joana sai chorando.

PADRE (ajoelha-se choro, no centro do palco)
Senhor! Perdoa esse pobre homem, que não sabe o que faz! Quase, quase essa mulher foi minha! Mas eu ainda tenho fé! E aquele noivo! Me perdoa senhor, mas é incontrolável! Eu quero senhor, eu quero! Eu também sou filho de Deus!


Joana volta. Padre levanta.


JOANA
Padre... Eu pensei melhor, e quero repensar sobre aquela questão de me regozijar inteirinha...

PADRE
Claro devota Joana, claro. Ajoelhe.


Joana ajoelha próxima de Padre


PADRE
Em nome do pai, do filho, e do espírito santo. Agora relaxe. Deus sabe o que faz. Amém!


Boquete e Blackout.




_______________________________


a cartomante

De Claudio Torres Gonzaga

típico ambiente de uma vidente, meio macumbeira, meio cigana. a cliente está na mesa e a mãe vidente chega.
CLIENTE
A Senhora é a Mãe Vidente?
mãe
Não precisa falar mais nada. Eu já sei tudo. Você quer saber mais sobre você, esclarecer coisas do seu passado e ver o seu futuro.
cliente
Nossa! Você e realmente ótima!
mãe
Mãe Vidente vê o passado, o presente e o futuro em 4 vezes no cartão.
cliente
(um pouco confusa) Você está dizendo que eu posso pagar a consulta no cartão?
mãe
Isso também. Eu vou ler a sua sorte num cartão.
cliente
Cartão que a senhora diz é uma carta grande?
mãe
Não. Cartão é o cartão de crédito mesmo. Vamos, me passa agora os seus cartões.
cliente, ainda meio confusa, vai entregando os seus cartões. mãe pega os cartões e começa a embaralhar. coloca eles empilhados em cima da mesa.
mãe
Corta.
cliente vai cortar como se fosse um baralho.
mãe
Não! (pega o primeiro da pilha) Corta despesas. Esse cartão aqui já está no limite!
cliente
(confere o cartão) É verdade.
CARTOMANTE
Estou vendo aqui que a senhora vai ter um futuro apertado.
cliente.
Por quê?
CARTOMANTE
A senhora num comprou uma calça jeans?
cliente
Comprei. Essa calça vai me levar a falência?
CARTOMANTE
A senhora comprou e comeu uma torta de chocolate inteira. A calça vai ficar apertada.
cliente
Obrigada, pelo aviso vou tomar cuidado.
mãe
(pegando outro cartão) Estou vendo aqui que você está com medo de perder o seu marido para uma mulher mais nova. Você gastou uma fortuna em cremes e roupas novas.
cliente
É verdade. O que mais?
mãe
O seu marido trabalha em Brasília.
cliente
Exatamente! Como a senhora sabe?
mãe
E que esse aqui é um cartão corporativo. (sente o peso) Esse tá carregado.
cliente
De energia ruim?
mãe
Carregado de despesa mesmo. (pega outro cartão) Estou vendo uma bela compensação...
cliente
Vou ser recompensada pelas minhas atitudes?
mãe
Estou vendo uma bela compensação, uma bela ficha de compensação. Mais de três folhas de despesas. (outro cartão) Esse aqui... (se concentra é usa o tom misterioso) eu quero que você se afaste dele e nunca mais traga ele aqui. Você tem que se livrar dele!
cliente
Mas por quê?
mãe
Ele está com a data de validade vencida. Quando a validade vence, você perde. (outro cartão) Estou vendo aqui que você não perdeu tempo. Tem se divertido bastante. Você é uma safadinha.
cliente
Agora a senhora errou. Eu não tenho me divertido nada.
mãe
Como não? Estou vendo aqui: comida cara, champanhe... motel...
cliente
Motel!? Me dá esse cartão aqui. (confere o cartão) Esse cartão é do marido. Aquele safado. Ele me paga. Obrigado Mãe Vidente, a senhora me ajudou muito (sai)
mãe
Por isso que eu digo: diga-me com que gastas que eu te direi quem é!
fim


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sorteio para quarta que vem - 14/10/2009 - tema: Novela


 
Na semana que vem, o Clube da Cena apresentará 7 cenas diferentes sobre o tema NOVELA.

Para isso, o elenco MAR foi dividido, através de sorteio, em 7 duplas. E cada dupla ficará responsável por transformar em cena cada um dos 7 textos escritos.

Veja abaixo o resultado do sorteio.

Autor                 -                     Atores

Cristina fagundes - Nova Novela - com Cristina Fagundes e Eber Inácio
Leandro Muniz - Novela - com Cacau Berredo e Cecilia Hoeltz
Ivan Fernandes - Plim Plim - com Alê Barros e Fernanda Saddy
Fábio Porchat - Luis Lobianco e Mariana Consoli
Cláudio Torres - A vida como ela é - João Rodrigo e Mariana Costa Pinto
Renata Mizrahi - Atuar não - com Marino Rocha e Thais Lopes
Afra Gomes - com Jorge Neves e Mayra Kesten
 

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Oportunidade para Dramaturgos - tema: FESTA


 
 
Atenção!

O Clube da Cena mais uma vez está abrindo oportunidade de participação para dramaturgos de todo o Brasil.

Para participar, basta enviar um texto de até 7 minutos de duração sobre o tema FESTA até segunda, dia 12/10, mencionando o nome da cidade e Estado.

Os textos selecionados serão encenados e os seus autores receberão 1,5 % do bruto da bilheteria do dia.

Aguardamos vocês!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Palhinha do espetáculo passado - quarta, 30/09 - Tema: DESCOBERTA

De amor e de Trevas
de Cristina Fagundes

Mulher abraça rapaz.

Ela: Parabéns meu filho!

Ele: É,18 anos, mãe.

Ela: (olha pra ele com um misto de ternura e tristeza)É, 18 anos... quem diria, o meu caçulinha, como passa rápido! (muda o tom, prática) Agora você já ta um homem. Já pode caminhar sozinho. Peraí que eu tenho uma coisa pra você (sai).

Ele: (alto – pra ela que saiu pra coxia) Que milagre essa casa vazia. È o meu presente?

Ela: (da coxia) Mais ou menos.

Ele: Cadê todo mundo?

Ela: (voltando) Já devem ta chegando.

Ele: Que isso mãe?

Ela: As suas coisas. Ta na hora de você seguir seu próprio caminho meu filho.

Ele: ....!

Ela: Ta tudo aí, o Playstation, aquela sua cuequinha.../

Ele: (ela a corta)/ Mãe, você mexeu nas minhas coisas?

Ela: E é melhor a gente se apressar que seu vôo sai daqui a pouco. Vem.

Ele: Mãe, que história é essa?

Ela: Você deve ta chegando em Brasília às onze horas e aí você tem que seguir direto pra esse endereço aqui ó. (dá um papel pra ele) Não vai perder esse papel, hein menino? Pelo amor de Deus! Agora vamos.

Ele: Eu não vou.

Ela: Como assim?

Ele: Como assim pergunto eu. Que maluquice é essa mãe? Hoje é o meu aniversário.

Ela: Por isso mesmo. Você tem que ir embora agora mesmo. Você ta me ouvindo?

Ele: Eu já disse que não vou. Vou viajar pra quê?

Ela: Mas você tem que ir! Tem que ir, ta me entendendo? Vambora, menino!

Ele: Mãe, que que ta acontecendo?

Ela: (ela olha pra ele intensa - tempo) Meu filho, você é um lobisomem.

Ele: Quê?

Ela: Você é um lobisomem. Hoje à meia noite você vai sofrer sua primeira transformação. Você vai vai virar lobisomem.

Ele: ....!

Ela: Eu sinto muito.

Ele: Você tem certeza?

Ela: (faz que sim com a cabeça).

Ele: Um lobisomem...

Ela: Você nunca desconfiou?

Ele: Não... se bem que eu sempre fui muito peludo, né?... pelo menos aqui embaixo(aponta virilha). Mas por que logo eu mãe?

Ela: Porque você é o nosso sétimo filho varão. (lamenta meio culpada) Eu achei que você fosse ser uma menina... devia ter feito ultra-som...

Ele: E agora?

Ela: Agora você vai ter que ir embora.

Ele: Mas eu não quero ir embora mãe.

Ela: Você vai viajar pra Brasília e vai procurar o Lula.

Ele: O presidente?

Ela: Isso, ele vai te ajudar. O Lula também é um Lobisomem.

Ele: Caramba!

Ela: Por isso que ele apóia o Sarney.

Ele: O Sarney também.../

Ela: (cortando ele) O Sarney é o líder Lobisomem no Brasil. Ele tem muito, muito poder. Ele tem poder até mesmo pra te proteger da gente.

Ele: Me proteger de vocês?

Ela: A partir de hoje nós somos inimigos mortais.

Ele: Mas mãe, vocês são a minha família, a minha casa é aqui...

Ela: Lobisomens e vampiros não podem dividir a mesma casa.

Ele: (tempo) Mas eu vou me comportar.

Ela: E eu não quero de ter bicho em casa!

Ele: Mas vai ser só nas noites de lua cheia!

Ela: Eu não quero você espalhando pêlos pelo sofá. Você não entende? Eu sou alérgica!

Ele: Mas a gente pode construir um canil e ai quando for lua cheia eu/

Ela: (corta) Não!

Ele: Você ta sendo fria comigo!

Ela: Você queria o quê? Eu sou uma vampira!

Ele: A gente pode estabelecer umas regras de convivência.

Ela: Tipo?

Ela: Tipo dividir a comida: eu fico com a carne e vocês com o sangue.

Ela: Não. No primeiro estresse você e seu pai vão acabar se matando.

Ele: (implica) Se matando como? Se a gente é imortal?

Ela: (suspira)

Ele: E a minha namorada?

Ela: Acabou. Lobisomens não namoram vampiras, isso só acontece em filme.

Ele: Mas eu gosto dela!

Ela: Ela vai acabar te sugando.

Ele: (malicioso) Até que não ia ser mau.

Ela: Meu filho, eu to falando sério. Eu sei que é difícil, é como se uma estaca de madeira partisse meu coração mas é preciso que você vá embora.

Ele: Mas eu não to preparado ainda mãe.

Ela: Mas ninguém nunca ta preparado pra vida não meu filho. Você vê, quantos anos eu tô? 715 e ainda não sei de nada.

Ele: Queria ver se fosse com você.

Ela: Olha, você vai ver como vai ser bom, você ainda tem tanta coisa pra conhecer, tanto cemitério, tanta encruzilhada. Tanto pra viver. A eternidade...

Ele: Eu não quero viver exilado.

Ela: E hoje é lua cheia, tá uma noite linda pra você se transformar...

Ele: Vocês são a minha família mãe.

Ela: Tá na hora de você começar a sua própria família, Nosferatus. Você não viu o seu primo, Venture, ele saiu de casa não tem nem 200 anos e já começou toda uma nova linhagem de vampiros, uma beleza. E você? Quando é que você vai fazer seu próprio clã?

Ele: Lobisomem não faz clã, faz matilha.

Ela: É. Você é diferente mesmo. É melhor ir embora.

Ele: Mas nós temos o mesmo sangue, mãe!

Ela: (nega) Tsss, tsss, tssss. Isso depende muito. Hoje por exemplo, o meu sangue é o sangue do Fluffy.

Ele: Mãe, você atacou o meu gato?!!! Você bebeu o sangue do Fluffy?

Ela: Ah, meu filho você ia viajar mesmo...

Ele: Eu não acredito!

Ela: Ele soltava tanto pêlo e além disso ele não ia se adaptar a Brasília. Gato não se adapta.

Ele: Eu te odeio!

Ela: Não grita comigo! (eles se estranham por um pequeno tempo – leves influências vampirescas e de lobisomem – eles ouvem um barulho) Escuta, deve ser seu pai! Ele foi comprar bala de prata pra te pegar! Anda! Vai embora! vai! (sentindo sua própria agressividade) Vai embora antes que seja tarde! Procura o Lula! (ele pega a mala e sai preocupado).

Ela: (suspira- exausta –fala sozinha). Anda meu filho, vai pra bem longe, se afasta da gente... ai, como é difícil se separar de um filho... (música estilo tango ou algo bonito e quase estranho.)


Vídeo da Cena
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DESCOBRINDO AS DIFERENÇAS
Leandro Muniz



Dois bebês, de fralda e chupeta, estão brincando no chão de uma creche.
Um menino e uma menina.
Menino percebe que não há ninguém por perto, e aproxima-se de Menina.


MENINO
Maria Eduarda?

MARIA
Não acredito.

MENINO
O que?

MARIA
Ninguém me chama assim há tempos! Detesto!

MENINO
Maria Eduarda, eu acabo de descobrir porque ficamos aqui a tarde toda.

MARIA
Dã. Descobriu a pólvora.

MENINO
Sem graça. Achei que você não sabia.

MARIA
Por que os meninos sempre sabem das coisas depois?

MENINO
Do que você ta falando?

MARIA
Estou falando de como nós mulheres amadurecemos antes. É incrível como os homens são infantis. É triste perceber que esse tipo de comportamento vai acompanhá-lo pelos próximos anos do resto de sua vida.

MENINO
Poxa... Eu vim aqui dividir um sentimento com você, e sou tratado desse jeito?

MARIA
Ah, garoto, se manca! Olha pra essa fralda! Veja que lambança! E ela acabou de ser trocada!
MENINO
Fala baixo! Maria Eduarda, meus pais trabalham, por isso eles me deixam aqui todos os dias.

MARIA
E...

MENINO
E o fato é que posso crescer traumatizado, por não sentir que estão próximos a mim, entende? A ausência de um lar feliz pode ser perturbador no futuro!

MARIA
Querido, acho que você deve estar estressado, sei lá... Aqui tem muita gente falando, muito choro, muito cocô... Não sei, nem sou tão intuitiva assim, mas vai por mim... Não são apenas algumas tardes numa sala cheia de bebês idiotas, que vão fazer com que você no futuro se transforme num marginal, ou numa figura tosca como um paparazzo ou um político.

MENINO
O que que é paparazzo?


Maria pensa por três segundos. Pega um chocalho e chacoalha pra MENINO.


MARIA
É isso aqui ó... Ê... Ê nenê, pronto, passou, vai brincar ali bem longe, viva dedê fofo ti lindin... Agora pára de me encher o saco!

MENINO
Aonde você vai?

MARIA
Eu preciso ir pra varandinha fumar, você me deixa tensa!

MENINO
Tá evitando polêmica? Mas as mulheres se acham muito espertas, não é? Por que será então, que demoraram tanto pra se tornar independentes? E olha que estou falando de uma minoria.

MARIA
Como ousa?

MENINO
Não sou eu. São os fatos. Segundo dados fornecidos pelo IBGE no CENSO de 2009, o desemprego tem atingido mais fortemente as mulheres, visto que está em uma taxa de 11,7%, 31% superior a dos homens. As mulheres negras então, nem se fala, o percentual é 86% superior ao dos homens.


MARIA
Entendi. É isso que você fica fazendo a tarde inteira? Meu Deus, como você é um bebê mimado! Não sei seu bostinha onde você leu esta mer...


Passa uma babá ao fundo, observando se estão todos bem. Maria pára de falar esperando a babá sair. Assim que ela sai Maria continua falando, mas quase cochichando.


MARIA
Esta pesquisa fajuta... Independência não tem a ver com trabalho! Eu não trabalho e sou uma mulher independente! Além do mais é nítido o crescimento da mulher no mercado de trabalho!

MENINO
É verdade, percebo isso nas creches e nos salões de beleza que minha mãe vai!

MARIA
Ai, figura machista! Falo de um reconhecimento de nosso valor, que vem desde a rebelião feminina do final dos anos 60, nos Estados Unidos e Europa! E não estou falando só de queimar o sutiã em praça pública não, criança! Estou falando de visibilidade política perante a sociedade! Estamos cada vez mais fortes!

MENINO
Sei, fortes. Você fala especificamente de quem? Heloísa Helena? Dilma? Hebe? Ah, claro, Edinanci!

MARIA
Ah, é guerra? Biafra, Paulo Coelho, Roberto Jefferson, Amaury Júnior!

MENINO
Peraí, você tá apelando!

MARIA (provoca)
Vamos lá, quero ver se você é mesmo o “sabe-tudo da mamãezinha” com medo de ficar sozinho na creche com os amiguinhos!

MENINO (choroso)
Pára!

MARIA
Que foi, seu fresquinho? Ta chorando? E olha que eu ainda nem falei do Gugu Liberato!

MENINO
Nojenta!


Menino golfa um pouco no seu babador.


MARIA
Ta com nojinho? Não agüenta o tranco, pede pra sair!

MENINO
Muito bem Maria Eduarda, um a zero pra você!

MARIA
Posso ir fumar agora?

MENINO
Vai fugir? Eu nem falei do número de neurônios inferior ao dos homens!

MARIA
Essa questão é velha, não faz diferença!

MENINO
Não tem percepção espacial aguçada!

MARIA
Tenho menos tendência a esquizofrenia!

MENINO
Nunca vou ter cólicas homéricas!

MARIA
E eu não nunca terei câncer de próstata!

MENINO
Você só pega pesado!

MARIA
To de TPM!

MENINO
Você não pode fazer xixi em pé!

MARIA
Agora você me ofendeu! E eu não sofrerei de calvície!

MENINO
Eu posso usar uma t-shirt branca quando vou a um parque aquático!

MARIA
Isso não faz o menor sentido!

MENINO
Grisalho eu ficarei mais charmoso!

MARIA
Tanto faz! Viva a henna, o botox e o silicone!
MENINO
Não preciso me depilar!

MARIA
Idiota, eu sou um bebê!

MENINO
Sim, mas isso vai acabar! E você sofrerá com todas essas pressões da velhice, as rugas, a menopausa, a celulite, e a bunda caída!

MARIA
Nãaaooo! Chega! Grosso! Seu grosso!


Maria começa a chorar, e afasta-se de Menino.


MENINO
Desculpe Maria Eduarda, eu me empolguei... Não queria te magoar.

MARIA
Mas magoou, seu brocha!

MENINO
Traiçoeira!

MARIA
Eu sou feminista!

MENINO
O melhor movimento feminista é o dos quadris!

MARIA
E você! Aposto que nem sabe o que os homens têm em comum com os aniversários e o clitóris?

MENINO
O que?

MARIA
Eles os perdem sempre...

(Pausa)

MENINO
Duda, sabia que você irritadinha fica um tesão?

MARIA
Sabia que eu até dava pra você?

MENINO
Faz o seguinte, já ta na hora de eu ir... A gente se liga.

MARIA
Tá... Mas liga depois das três da manhã, que eu vou estar comendo minha papinha.

MENINO (galante)
Você... Sabe me provocar...


Menino pega o chocalho do chão e balança dando tchau pra Maria Eduarda. Entra babá.


BABÁ
Vem Henrique, seus pais chegaram! Deixa isso aqui, deixa. Larga Henrique!

MENINO (olhando pra babá e mexendo o chocalho)
Paparazzo... Paparazzo...



Black Out.

Vídeo da cena