segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Quinta noite do Clube da Cena Redes Sociais

E a quinta noite do Clube das Cenas Redes Sociais foi assim.





1.     ACERTO DE CONTAS,  de Cristina Fagundes   – Post Você é livre para fazer suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências.
Com Rita Fischer e Marcella Leal – direção Léo Castro





2.     AMIZADE VERDADEIRA, de César Amorim  – Post Não gosto do namorado da minha melhor amiga, como lidar?
              Mariana Costa Pinto e Marcello Gonçalves   – direção Andy Gercker  





3.     LEVE-ME AO SEU LÍDER, de Ivan Fernandes  – Post Um dia o cara tava em casa, coçando o saco e pensou: ah, vou ser flanelinha!
        Com Zé Guilherme Guimarães, Cristina Fagundes e Jorge Neves – direção Carmen Frenzel  

      

4.     CONTATO É TUDO NESSA VIDA, de Paula Rocha  – Post E não me diga que anjos não existem que eu dou o endereço de pelo menos uns 3 que eu conheço.
Com Marcelo Lima, Alex Nader, Renato Albuquerque e Bruno Pêgo – direção Bruno Bacelar
  


  
5.     VIA DE MÃO DUPLA, de Bruno Bacelar  – Post Pimenta no cú dos outros é refresco.  
Com João Velho e Bia Guedes  – direção Fernando Melvin



  
6.      CLUBE DAS PEDRAS, de Diego Molina – Post Minha mãe me botava para brincar com pedrinhas... Coitada de mim!
 Com Bruno Bacelar, Mariana Consoli, Ana Paula Novellino, Adressa Koetz, Adriana Bengzi Paulo Eduardo Campos e Marcella Leal  – direção Raul Franco


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Nossos músicos: Aldo Mederios e Maria Thalita de Paula.


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E assista no youtube as duas cenas mais votadas pelo público.

Primeiro lugar: VIA DE MÃO DUPLA, de Bruno Bacelar  


Segundo lugar: LEVE-ME AO SEU LÍDER, de Ivan Fernandes  



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Textos das cenas mais votadas.


Via de Mão Dupla, de Bruno Bacelar


(Quarto. Casal entra excitado se agarrando).

Ela – Ai amor, eu estou cada dia gostando mais de você...

Ele – Eu também, amor! Tô morrendo de tesão...

Ela – Um mês de namoro! Está tudo tão maravilhoso...

Ele – Um mês já, né? Seu zíper tá emperrado, é?

Ela – Eu queria te fazer um pedido...

Ele – Pede o que quiser amor: peça a lua que eu te dou!

Ela – Jura?

Ele – Claro amor! Onde tá a camisinha...

Ela – Ai, estou tão excitada!

Ele – Também... Já tô com o saco doendo...

Ela – Eu quero te comer.

Ele – Oi?

Ela – Eu quero te comer.

Ele (pausa. Ri aliviado) – Ah, tá! Você quer me comer no sentido figurado: Me devorar! Me possuir... Safadinha! É claro que você pode! Me devora! (se joga na cama)

Ela – Não amor. Eu quero te comer no sentido literal, mesmo.

Ele – Sentido literal?

Ela – É. Te penetrar.

Ele – Me penetrar?

Ela – Tá com problema de audição?

Ele – Não. E você está louca?

Ela – Não. Por que estaria?

Ele – (irritado) Por quê?!? Porque você disse com a maior tranquilidade do mundo que, que quer, me, me...

Ela - Comer! Eu quero te comer! Ih... (aborrecida)

Ele – Ih digo eu! Quer me comer... Não seja ridícula! Me comer como? Pode me dizer? Eu tenho o brinquedo de armar! Você tem o brinquedo de abrir... Lembra?

(Enquanto ele fala o texto acima ela tira da bolsa um cinturão com pênis, ou outro tipo de consolo. Quando ele dá de cara com o membro, se assusta).
Ele – Aiiii!  Você trouxe um pênis...

Ela – Uma caceta e tanto, não acha?

Ele – Pelo amor de Deus...

Ela – Olha a bitola da chapeleta (admira)

Ele – Para com isso...

Ela – Tala larga...

Ele – Mulher!!!!

Ela – Eu chamo carinhosamente de “Chapoca”.

Ele – Você tá com o diabo no corpo. Só pode ser...

Ela – Deixa de ser retrógrado, homem? Vamos lá... Vai ser bom... 

Ele – Vai ser bom... O caralho, que vai...

Ela – Caralho? Opa! Tá aqui...

Ele – Eu sou homem, mulher...

Ela – Sim. E???

Ele – E daí que, que a minha via só sai, entendeu? Via de mão única! Só sai...

Ela – Mas que bobagem, amor! Pensamento de classe média! (carinhosa) Você sabia que essa era uma prática normal na Grécia antiga? Beijo grego! Anilingus...

Ele – Anilingus!?

Ela – Cunete, língua lá... (faz linguinha ilustrativa)

Ele – Cruzes...

Ela – Na Grécia Antiga eles faziam de tudo...

Ele – Ah, tá? E na Grécia Antiga já existia o, Chapoca? Fala sério...

Ela – Chapoca não... Mas o Dildo!

Ele – Dildo?

Ela – (persuasiva) Sim. Dildo: falos de madeira com vinte centímetros!

Ele – Vinte centímetros?!

Ela – Como o Chapoca...

Ele – Quer dizer que os gregos, os pais da civilização ocidental, mandavam uma tora de vinte centímetros pra dentro?

Ela – Com azeite para facilitar o processo...

Ele – Por isso se chamava Dildo... De “fulDildo” (riso frouxo c a própria piada. Percebe quão tosca foi a piada e se recompõe)

Ela – Na Pré História eram de pedra...

Ele – Puta que pariu...

Ela – Poxa amor, deixa vai! Olha como eu tô excitada... ( vem c/Chapoca p/ ele)

Ele – Sai para lá.

Ela – O meu último namorado, antes de você, adorava, sabia?

Ele – Ah sei... Gostava tanto que deu no pé...

Ela – Eu larguei ele...

Ele – Ah é? Por quê?

Ela – Ah, sabe como é! Se apegou demais... Grudou, sabe? Detesto grude...

Ele – Hum...

Ela – Depois que eu apresentei o Chapoca para ele, não queria outra vida...

Ele – Ah, então você já usou “ele” em outro... ? Ai, que merda...

Ela – Não tinha não...

Ele – O quê?

Ela – Merda. Eu usava preservativo!

Ele – Preservativo?! Onde?!

Ela – No Chapoca!

Ele – No Chapoca?! (risinho) Mas é o quê? Medo de engravidar o ex?

Ela – Não. Uma questão de higiene. (ele não entende) É que o Chapoca é feito de material poroso... (Olhar expressivo dela. Ele entende. Ele faz cara de nojinho).

Ela – Eu até achei que aquele grude todo era mero fascínio pelo falo. Tentei resolver deixando ele alguns momentos a sós com o Chapoca.

Ele – Sozinho com a geba? Mas como é que ele... fazia?

Ela – Adaptei uma ventosa na base dele.

Ele – Oi?

Ela – Ventosa, amor: molha com um pouquinho de água, gruda na parede, e depois e só fazer a carreira solo! (movimentos ilustrativos. Ele passado). Enfim, meu amor! Aquele sim era um cara sem preconceitos...

Ele – Eu não tenho preconceitos... Só não quero dar...

Ela – Mas de comer você gosta!

Ele – Bem...

Ela – Pensa comigo: se é bom para você, vai ser bom para mim também, concorda?

Ele – Para você... sei lá... Para mim vai ser péssimo!

Ela – (irritando-se gradativamente) Ah, então se é péssimo para você, concluo que você imaginava que era péssimo para mim também...

Ele - Não é isso, meu amor...

Ela - (irritando-se gradativamente) Uma vez que cu e boca não tem sexo. 

Ele – É... de fato não tem...

Ela - (irritando-se gradativamente) A partir desta constatação entendo que você pouco se fodia comigo, e que só queria me foder, em todos os sentidos...

Ele – Calma, benzinho...

Ela - (muito irritada) Porque afinal de contas, piroca no cu dos outros é refresco, não é, seu filho da puta???

Ele – Porra mulher, caralho! (ela chora)

Ele - (pensa) Quer dizer, vai tomar no cu, que merda! (ela chora mais)

Ele - (pensa) Cu... merda... Não, não... Enfim! Você tá me deixando louco com essa conversa! (pensa) Quer saber... faz aí o que você quiser! (abaixa a calça e fica na “posição”) Feliz um mês de namoro! Divirta-se.

Ela – (olha e pensa) Ah, cara... Agora ficou difícil!

Ele – Oi?

Ele – Rolou muita incompreensão, muito preconceito, muita ignorância da sua parte... Estou abaladíssima!

Ele – Não tô entendendo...

Ela – Olha cara, vou precisar de um tempo para digerir tudo isso! Rolou muita energia bizarra! Acabou com o clima! Olha só, (aponta Chapoca) brochei!

Ele – Você tá de sacanagem...

Ela – (dando um beijo no rosto dele) Qualquer coisa te cutuco no face! Bjos. (sai)

(Ele a acompanha com o olhar. Fica inicialmente sem ação. Pensa. Pega o celular. Liga. Aguarda.).

Ele – Alô? Grandão! Fala primão! Preciso que você venha aqui em casa agora... (ouve) O quê? Não! Sabe o que é... Você quer conhecer mais sobre a Grécia?

FIM


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Leve-me Ao Seu Líder, de Ivan Fernandes

De Ivan Fernandes

Música de ficção científica (2001 – uma odisséia no espaço). Entram dois alienígenas. Olham em volta meio perdidos.
1 – Tem certeza que Saturno é aqui?
2 – O GPS disse que é aqui. O GPS não falha.
1 – Sei não. Saturno não tinha um anel em volta? Você lembra de ter passado algum anel? E as 9 luas? Só to vendo uma!
2 – Como você é detalhista! Desse jeito só vamos acabar a missão no próximo milênio! Eu quero sair da via láctea antes da hora do rush! Amanhã é feriado sideral e você sabe como aquilo fica cheio!
1 – É mesmo, é melhor a gente se apressar. 
(vão sair do palco, mas são abordados por um flanelinha)
F – Ô patrão! Patrão! Tô aqui tomando conta, valeu? Podeixar solto!
1 – Veja! Um local!
2 – Mas o que ele tá dizendo? Acione o tradutor intergaláctico!
1 – O tradutor não reconhece a linguagem! Deve ser algum dialeto!
F – Nossa, esse carrão enorme ali atrás é o de vocês? Que marca é? É importado? Vocês tem muita coragem de andar com uma máquina dessas por aqui. Mas pode ficar tranquilo que comigo olhando, ninguém tira farofa. Só vou pedir a vocês um trocadinho pra vigiar o carro, pra garantir o leitinho das criança... e o pagamento é adiantado. Qualquer cinquenta conto tá bom...
2 – Parece que ele quer alguma coisa...
1 – Vou checar o procedimento de boas vindas padrão em Saturno. (checa. Estende as mão com os dedos em V, separados, igual ao Spock de Jornada nas Estrelas) Vida longa e próspera!  
F – Ih, cumpadi, que caô é esse? Se não pagar e o carro aparecer arranhado, não vem reclamar depois..
2 – Acho que a saudação não funcionou muito...
1 – Não é possível! É a saudação clássica dos saturnianos!
2 – Ah não ser que o GPS esteja errado... (para o Flanelinha) Nobre alienígena, pode nos informar onde é que nós estamos?
F - Tão perdido? Logo vi, com essa cara de gringo... pra onde vocês tão indo? 
1 e 2 – Saturno!
F – Onde? Nunca ouvi falar!
1 e 2 se olham desolados.
2 – Viu só? estamos perdidos!
1 – Então de onde você vem?
F – Do Turano! Olha, se vocês não acharem aí esse tal de Saturno, eu indico o baile lá do Turano que é o maior pancadão! Até os gringo perde a linha!
1 – Turano? Deixe-me olhar no guia. (consulta) Nenhuma referência! E agora? Toda a nossa missão está perdida! 
2 – Perdida? Jamais! Vamos agir aqui mesmo, depois a gente bota no formulário que é Saturno. Eles não vão vir até aqui pra confirmar.
1 – Vamos seguir então. (para o flanelinha) Leve-me ao seu líder!
F – Como é que é, patrão? 
2 – O líder aí desse Turano!
F – O dono do morro? Ih, aí complica... O homem não recebe ninguém assim sem avisar... e aí pode sujar pra mim... pra que vocês querem falar com ele?
1 – Nós somos representantes do planeta Klypton, situado na galáxia de Melnor, na saída à esquerda da via láctea.
2 – Estamos fazendo uma pesquisa pra saber como se vive aqui no seu planeta.
F – E essa pesquisa só pode ser com ele? Faz comigo mesmo! 
1 – Você é um líder?
F – Eu? Bom, posso não ser um líder, mas assim mesmo lá em casa todos meus amigos, meus camaradinhas me respeitam... 
(1 e 2 se olham, se consultam)
1 – Tá bom, vamos em frente, já tamos fodidos mesmo...
2 – Qual a fonte de poder do seu planeta?
F – Pô, essa é difícil, hein, patrão? Já saí da escola há tanto tempo que... Deixa eu pensar! 
1 – (dando pista) Em alguns planetas, é a água...
F – Não, se ainda fosse cerveja...
2 – (dando pista) Em outros, é o ar...
F – Também não... Ah, já sei! É o carro!
1 – Aquilo que vocês usam pra se mover?
F – Um carro é muito mais que isso, patrão! Serve pra ostentar, pra tirar onda, pra fazer pega, pra ir a praia, pra ir pra night, pra correr na velocidade da luz...
2 – Então eles já tem velocidade da luz...
F - Pra comer mulher... 
1 – (anotando) Carro serve para acasalamento da espécie... 
2 – E todo mundo tem carro aqui?
F- Todo mundo não! Só alguém! 
1 – O que é alguém?
F – Aqui tem dois tipos de gente. Alguém e ninguém. Quem tem carro, é alguém. Que não tem, é ninguém. Pro ninguém, tem um carro maior, quase do tamanho desse seu aí. Aí enfiam todos os ninguéns nesse carro maior, que vai parando de ponto em ponto pra levar todo mundo.
2 – E o ninguém pode se acasalar?
F – Poder pode, doutor, o difícil é conseguir! As fêmeas escolhem o macho pelo carro... como se fosse a plumagem do passarinho...
1 – Mas de onde a gente vem, só usamos o carro pra deslocamentos longos... de um planeta pra outro, de uma galáxia pra outra...
F – Ah, não! Aqui, quem tem carro usa até pra atravessar a rua. Imagina ser visto sem carro! Vai ser confundido com ninguém!
2 – De onde a gente vem, a preferência é de quem não tem carro. 
F – Ah, mas aqui também! Preferência de se foder, de ir à merda, à puta que pariu, e de morrer atropelado. E é bem feito! Quem mandou se meter na frente do carro? Esse negócio de faixa de pedestre, é ditadura comunista!
1 – Mas então, o ninguém que não tem carro não tem direito a nada?
F – Mais ou menos. O carro é de vocês, a rua é nossa. E pra estacionar, tem que pagar.É aí que entra o meu negócio, patrão. 
2 – Então quem é alguém, tem que pagar a você pra estacionar?
F – Pro ninguém aqui! Tão todos na minha mão! Até que eu junte dinheiro, compre um carro e vire alguém! Aí vou ficar na mão de outro ninguém!
1 e 2 se olham
1 – Já achamos o que precisávamos...
F – Agora só falta o adiantamento...
2 saca uma pistola de raios e imobiliza o flanelinha.
2 – Se os mais poderosos tem que pagar a ele, então ele é o mais poderoso... 
1 - Rápido, leve ele até o nosso disco. Eu vou assumir o lugar. Ninguém vai perceber, e em breve, teremos dominado todo o planeta dos alguéns e dos ninguéns... 
2 sai carregando o flanelinha congelado. Barulho de carro.
1 – Aí vem um alguém! Como é que ele falava mesmo? (imita) Ô patrão! Patrão! Tô aqui tomando conta, valeu? Podeixar solto! Só vou pedir a vocês um trocadinho pra vigiar o carro, pra garantir o leitinho das criança... e o pagamento é adiantado. Qualquer cinquenta conto tá bom...


FIM




sábado, 8 de novembro de 2014

Quarta Noite do Clube da Cena Redes Sociais

E a quarta semana do Clube da Cena Redes Sociais foi assim:



MENDIGO ARTE, de Cristina Fagundes  – Post Fui ser legal e atirar um pacote de bolachas para mendigo e agora ele tá gritando Novinha Mostra os Peitos.
Com Ana Carolina Sauwen e Mariana Consoli  – direção Alexandre Bordallo 




2.     MANAUS, de Ivan Fernandes  – Post Adoro Passear
                     Com Bruno Bacelar e Maíra Kestenberg  – direção Ana Paula Lopes 


3.     CIDADANIA A GENTE APRENDE DESDE PEQUENO,  de Diego Molina   – Post Afrodescendesco
      Com Renato Albuquerque e José Auro Travassos  – direção Breno Sanches  



4.     M.I. – MAIS QUE IMPOSSÍVEL, de Daniel Berlinsky  – Post Procuro apartamento que não me faça ter que vender um rim pra pagar
Com Marcelo Dias e Kakau Berredo  – direção João Rodrigo Ostrower 



5.     VINGANÇA É UM PRATO QUE SE COME DOCE, de Paula Rocha – Post Guerra de Açúcar no Guanabara.
Com Karen Liberman e Priscila Assum  – direção Cadu Fávero



6.     NOVELA DAS SEIS, de César Amorim  – Post Minha mãe tá com Mania de ir na Cartomante
                 Com Marcelo Cavalcanti e Flávia Espírito Santo  – direção Lincoln Vargas 

E os nossos músicos Maria Thlalita de Paula e Aldo Medeiros:



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E, como de costume, o público escolhe as cenas preferidas.

A cena mais votada da noite foi Cidadania a Gente Aprende Desde Pequeno.


E empatados no segundo lugar ficaram:

Mendigo Arte


e Novela das Seis



E confira os textos das cenas:

“CIDADANIA A GENTE APRENDE DESDE PEQUENO”.
De Diego Molina.

Na sala da diretoria. Dois garotos, JOÃOZINHO e PEDRINHO, conversam com a DIRETORA, sempre muito lúcida.
DIRETORA – Joãozinho e Pedrinho, da quarta série D, não é isso?
OS DOIS – Sim, professora.
DIRETORA – Pedrinho, o que aconteceu?
PEDRINHO – O Joãozinho me chamou de nordestino escroto filho da puta.
DIRETORA – É verdade, Joãozinho?
Joãozinho não responde.
DIRETORA – Hein, Joãozinho? Chamou o Pedrinho de nordestino escroto filho da puta?
JOÃOZINHO – Chamei...
DIRETORA – Não tem vergonha, menino? Hein? Isso é vocabulário que se diga? Hein? Isso aqui é uma instituição de respeito! É colégio caro! Não pode sair xingando o coleguinha de qualquer coisa!
JOÃOZINHO – Foi sem querer...
PEDRINHO – Sem querer nada! Ele sabe que eu nasci em Pernambuco e fica pegando no meu pé!
DIRETORA – Pede desculpas pra ele, Joãozinho!
JOÃOZINHO – Tá bom... Desculpa, Pedrinho.
DIRETORA – Não, repete o que falou pra ele. Fala: desculpa, Pedrinho, por ter te chamado de paraíba escroto cabeçudo filho da puta.
PEDRINHO – Ele não falou isso!
DIRETORA – Cala a boca que eu tô tentando te ajudar! Fala, Joãozinho!
JOÃOZINHO – Desculpa, Pedrinho, por ter te chamado de paraíba escroto cabeçudo filho da puta.
DIRETORA – Isso. Agora fala: entendo que sua mãe foi obrigada a fazer coisas desagradáveis aos olhos de Deus, mas antes ser uma vadia depravada que morrer de fome.
PEDRINHO – Professora, minha mãe é médica!
DIRETORA – Fica quieto! Fala, Joãozinho!
JOÃOZINHO – Pedrinho, entendo que sua mãe... Esqueci o resto, professora.
DIRETORA – Fala comigo, então. Pedrinho, seu ignorante de merda...
JOÃOZINHO – Pedrinho, seu ignorante de merda...
DIRETORA – Analfabeto safado e preguiçoso...
JOÃOZINHO – “Afalnabeto” safado e preguiçoso...
DIRETORA – Comedor de farinha e rapadura...
JOÃOZINHO – Comedor de farinha e rapadura...
PEDRINHO – Eu nem como isso!!
DIRETORA – Tô tentando ajudar!
PEDRINHO – Não quero mais!!
DIRETORA – Tá bom. Não quer, não quer.
PEDRINHO – Já vou...
DIRETORA – Que é isso, menino? Eu te liberei?
PEDRINHO – Já tá resolvido.
DIRETORA – Não tá não. Dá a outra cara a tapa.
PEDRINHO – O quê??
DIRETORA – Dá a outra cara a tapa! Tem que demonstrar humildade!
PEDRINHO – Mas ele não me bateu!
DIRETORA – Mas te agrediu. Verbalmente. Então é como se fosse. Não agrediu, Joãozinho?
JOÃOZINHO – Agrediu, professora!
DIRETORA – Então dá uma porrada na cara do Pedrinho, Joãozinho.
JOÃOZINHO – Oba!!
PEDRINHO – Não quero!
DIRETORA – Ô, Pedrinho! Que tipo de nordestino é você? Achei que fosse guerreiro! Lutador! Cabra macho! Não é?
PEDRINHO – Eu sou tudo isso! Quem não é macho é o Joãozinho!
JOÃOZINHO – Cala a boca!!
PEDRINHO – Não calo não! Professora, sabe o que ele tava fazendo com o Ricardinho, da terceira C?
JOÃOZINHO – Eu vou te pegar, idiota!
DIRETORA – Opa, calma aí, Joãozinho! Agora eu quero ouvir! Fala, Pedrinho.
PEDRINHO – Tava obrigando o Ricardinho a fazer espadachim com ele no banheiro!
JOÃOZINHO – Mentiroso!
DIRETORA – O que é espadachim?
PEDRINHO – É pinto com pinto!!
Tempo.
DIRETORA – Isso é verdade, Joãozinho? Tava fazendo espadachim com o Ricardinho da terceira C?
Joãozinho fica mudo.
DIRETORA – Porra, Joãozinho! Eu querendo aqui quebrar teu galho e você me vem com viadagem, cara?
JOÃOZINHO – O Ricardinho também quis!!
DIRETORA – Não, Joãozinho, não, cara! Não tá certo! O garoto ser nordestino ainda vá, porque nasceu assim. Mas viado, cara, que tu ainda pode escolher?! Aí você me sacaneia!
JOÃOZINHO – Eu só tava brincando!
DIRETORA – Brincadeira brincadeira tá aí o Leão Lobo. Taí o Jean Willys. Taí o Raul Franco. Que é que eu faço contigo, Joãozinho? Hein? Vou ter que te mostrar o caminho certo da vida? Te ensinar como é que funcionam as coisas da natureza? Pega no meu peito.
JOÃOZINHO – Não!!
DIRETORA – Não vai pegar? É peroba, então?
JOÃOZINHO – Não sou peroba!
DIRETORA – É o que, então? Esconde-cobra? Pé-de-salsa? Hein? Fala assim: eu sou morde-fronha.
JOÃOZINHO – Não falo!
DIRETORA – Diz assim: meu nome é Joãozinho da quarta série D e sou jóquei de jiboia. Hein? Não? E vampiro de linguiça?
JOÃOZINHO – Para, professora!
DIRETORA – Tá bom, eu paro. Só me responde uma coisa. Menino que é menino gosta de quê? Linguiça ou acarajé? Entendeu, né? (Faz com a mão) Linguiça é isso... Acarajé é isso...
PEDRINHO – Eu gosto de acarajé!
DIRETORA – Ainda bem, né, Pedrinho? Nordestino e viado ia ser demais! Só faltava você ser negro também. Negro, viado, nordestino e torcedor do botafogo. Aí era o cúmulo da minoria. Aliás, vocês sabem o que é cúmulo?
PEDRINHO – O Joãozinho sabe! Adora dar o cúmulo! (Ri)
JOÃOZINHO – Para!!! (Chora)
DIRETORA – Isso, Pedrinho! Tá pegando o jeito! Se você continuar melhorando assim e perder o sotaque, quem sabe um dia você vira gente?
PEDRINHO – Oba!!
Toca o sinal.
DIRETORA – Os dois, aqui, em fila! E engole o choro, Joãozinho! Hora do hino.
Toca o hino nacional.
DIRETORA – Mãos pra trás. Quando terminar o hino vamos mostrar, eu e você, Pedrinho, o que um homem deve fazer com uma mulher.
PEDRINHO – Eu quero!
DIRETORA – Quem sabe Joãozinho aprende. Né, Joãozinho?
JOÃOZINHO – Não!!
PEDRINHO – Êêêê!!!
FIM

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Mendigo Arte - de Cristina Fagundes


Exposição de arte – duas amigas se encontram.
ODETE – Maria Lúcia!
MARIA LÚCIA –  Odete!   
ODETE – To te procurando há meia hora! 
MARIA LÚCIA –  É que eu vim direto pro banheiro. Eu ando com a bexiga solta menina.   
ODETE – A exposição tá bárbara, você viu os Impressionistas?
MARIA LÚCIA – Eu to te falando Odete.  Só deu pra eu ver as esculturas do corredor, que eu vim correndo fazer xixi.
ODETE –  Mas que galeria é essa? (sobre o local onde estão)
MARIA LÚCIA – Acho que é a parte de arte contemporânea.  (Olha em volta e vê mendigo) Gente, que isso?
ODETE –  Isso o quê?  (tb vê) Nossa... (se aproximam do mendigo).
MARIA LÚCIA – Olha só.... (tempo - aponta o catálogo)  O que que tá dizendo aí? 
ODETE –  Mas será que tá no catálogo? 
MARIA LÚCIA – Claro que tá, olha lá, (mostra plaquinha em cima do mendigo) é o número 7.  
ODETE –  Hum, 7? Deixa eu ver.(olha catálogo)  Ah, tá aqui ó: Mendigo em Carne e Osso portando Cachaça.  Origem desconhecida.  Encontrado em Copacabana.  Dimensões: 1,75 em pé. Hum, nem parece né?
MARIA LÚCIA – Mas é que ele tá sentado Odete. 
ODETE  – Mas que interessante.   
MARIA LÚCIA – Amei.  (ficam olhando)
ODETE –  (lê) Sobreposição de panos rasgados e poeira das ruas.  
MARIA LÚCIA –  Rústico né?  
ODETE – Super me afetou. 
MARIA LÚCIA – Ih, ele mexeu.
ODETE – Claro Maria lúcia, ele tá vivo ué.
MARIA LÚCIA – ih, ele tá me olhando.  
ODETE – E agora?
MARIA LÚCIA – Será que é pra gente interagir?
ODETE – Mas como?
MARIA LÚCIA – Ele tá olhando pra minha bolsa.  (tem idéia) Peraí.  (pega um pacote de bolachas e oferece uma para ele)  Oi... tudo bem?  Você tá com fome?  Quer uma? 
ODETE – Que isso Maria Lúcia?
MARIA LÚCIA – Bolacha. 
ODETE –  Mas será que pode alimentar ele? 
MARIA LÚCIA –  Mas que besteira.  Você não tá vendo que é uma obra interativa?  É claro que pode.  (pro mendigo) Quer?   Toma aqui ó.
MENDIGO pega a bolacha e a come, olhando pra elas. Tempo.  
ODETE – E agora? O que será que é pra fazer?  
MENDIGO – Mostra os peitos novinha.
MARIA LÚCIA – Que isso?
ODETE – Gente!
MARIA LÚCIA – Será que isso faz parte da experiência?
ODETE – Não sei... 
MARIA LÚCIA – Vou dar outra pra ele.
ODETE –  Cuidado.
MARIA LÚCIA – Olha, eu tenho mais, quer?   DÁ OUTRA BOLACHA MENDIGO COME E FICA EM SILÊNCIO.
MARIA LÚCIA – Você não vai falar nada?
MENDIGO –  Levanta a saia novinha.
MARIA LÚCIA – Odete! Ele me chamou de novinha! Você viu? 
ODETE – Peraí que eu também tenho uma coisa aqui.   (pega um amendoim) Quer?  É amendoim ó (come um) é bom ó, uma delícia... Quer?  (bota um pouco na mão dele – que come – elas aguardam).  E aí?
MENDIGO – Bruxa velha vazia interior eco faz. 
ODETE – Não entendi. O que que ele quis dizer com isso?  
MARIA LÚCIA – Acho que é tipo um biscoito da sorte. Uma frase pra pensar.
ODETE – Não gostei.  
MARIA LÚCIA – Mas por quê?
ODETE – Não sei.  Achei hermético.
MARIA LÚCIA – E se eu der uma esmola pra ele, o que será que acontece?
ODETE – Não é correto.
MARIA LÚCIA – Mas por quê?  Ele pode usar pra fazer um lanchinho na bombonière. 
ODETE – Você não tá vendo que assim ele não vai trabalhar nunca Maria Lúcia?  Você não pode dar o peixe, você tem que ensinar a pescar.
MARIA LÚCIA – Mas ele já tá trabalhando, ele é uma obra de arte. Isso é uma forma de ocupação, não?  
MENDIGO CANTAROLA TRECHO DA MÚSICA DA ANA CAROLINA: Odarundá rundê, oderundê rundá, no meu quarto na cozinha na sala de estar... (PÁRA DE CANTAR)
MARIA LÚCIA – Olha. Ele canta.
ODETE – e daí?
MARIA LÚCIA – Acho que ele tá falando para gente da casa dele.
ODETE – Agora você pirou na batatinha.
MARIA LÚCIA – É sim. É uma não casa Odete, ele tá evidenciando o que não há, é um discurso sobre a ausência, você não tá vendo?
ODETE – Não.
MARIA LÚCIA – Odete, você não tem sensibilidade.
ODETE – Ah, Maria Lúcia, você tem mania disso.
MARIA LÚCIA – Disso o quê?
ODETE – Toda exposição é a mesma coisa.  Só você que pode ser a entendida.  
MARIA LÚCIA –  Até parece. 
ODETE – Coisa chata.  Você acha que só você que sabe tudo.  Que é a rainha da cocada preta.  
MARIA LÚCIA – Não sei de onde você tirou isso.
ODETE -   Na exposição do Dali foi a mesma coisa.  Você veio dizer que aquele bigode espetado dele era trauma de infância.  Ora me poupe.
MARIA LÚCIA – Você devia estudar mais Odete.  Você parece que só vem pra exposição para ficar no ar condicionado.  
MENDIGO PEIDA.  
MARIA LÚCIA – Credo! Acho que ele peidou.
ODETE – Por que o espanto Maria Lúcia?  Mendigos peidam.   A gente prende.  Eles peidam.  Eles não são reprimidos que nem você não.
MARIA LÚCIA – Eu não sou reprimida.
ODETE – É sim. Um xixi no mar você não é capaz de fazer Maria Lúcia. Mas eles não.  Eles se permitem.  São livres pra peidar, pra ir e vir, pra dormir onde quiserem, sob a luz das estrelas.  Eles são livres.   Você não entende?  É disso que se trata essa obra Maria Lúcia. De liberdade.  (pra ele) Não é?
MENDIGO – Fuck you.
MARIA LÚCIA – Nossa.  Ele fala inglês.
ODETE – Será que ele já foi exposto em Nova York? (olha o catálogo)
MARIA LÚCIA –  Ih, você viu o que ele fez com a língua?   
ODETE – Caramba, olha isso:  valor sugerido: 40 mil reais. 
MARIA LÚCIA –  Odete ele tá fazendo umas coisas estranhas.  
ODETE – Nossa, que mendigo caro.  
MARIA LÚCIA – Você acha Odete?
ODETE – Ué, você não viu a quantidade de mendigo na porta quando você entrou não?  Dava pra levar uma meia dúzia pra casa de graça. E esse é 40 mil. Onde já se viu isso? 
MARIA LÚCIA –  Mas é uma obra de arte, você não tá vendo?
ODETE –   Não tá vendo o quê? 
MARIA LÚCIA –  Ele é  diferente Odete.  Ele é único.   Ai. 
ODETE – Que foi agora?
MARIA LÚCIA – Ele pegou no meu cabelo. Você viu?  
ODETE – Não chega perto assim Maria Lúcia.  
MARIA LÚCIA – O que mais será que ele faz?  (TOCA NELE)
ODETE –  Maria Lúcia não toca nele.  Tá falando alí que é pra não tocar.  E se tiver alarme?  
MARIA LÚCIA – Odete, eu vou com ele alí no banheiro.
ODETE – Você vai aonde?
MARIA LÚCIA –  Você olha para mim se vem alguém tá?  Se vier, você assobia. 
ODETE – Perái,  vão dizer que você roubou ele.  Você quer ir presa?  
MARIA LÚCIA – Não. Eu quero viver uma experiência artística completa.  (pro mendigo) Vem comigo meu bem.  (saindo com ele).
ODETE – Você tá maluca Maria Lúcia?
MARIA LÚCIA – Você não entenderia Odete.  
Fim. 

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Novela das Seis - de César Amorim.

TÍPICA NOVELA MEXICANA. COM TRILHA SONORA RECHEADA DE SONS IMPACTANTES DURANTE AS REVELAÇÕES.
CARTOMANTE – Branco.
ANGÉLICA – Preto.
CARTOMANTE – Preto?
ANGÉLICA – Preto.
CARTOMANTE – Ah, filha, ele pinta. Não é possível. Aqui tá bem claro. Grisalho.
ANGÉLICA – Grisalho não é branco.
CARTOMANTE – É o quê, então?
ANGÉLICA – No máximo cinza.
CARTOMANTE – Cinza. Pronto. Tá bom assim?
ANGÉLICA – Não. Porque o cabelo dele não é cinza. É preto.
CARTOMANTE – Estamos falando da mesma pessoa?
ANGÉLICA – Acho que não.
CARTOMANTE – Tou falando do homem que te come.
ANGÉLICA – Não é do meu marido?
CARTOMANTE – Claro que não.
ANGÉLICA – Ah, então, desculpa. O Geraldo, meu amante, é grisalho mesmo, mais pra branco total.
CARTOMANTE – Estava certa. Deixa voltar. Esse homem, teu amante, te fez um filho, não foi?
ANGÉLICA – Foi?
CARTOMANTE – Se não ainda, a criança deve tá apontando por aí. Vejo uma filha na sua vida.
ANGÉLICA – Impossível. Não posso mais ter filho.
CARTOMANTE – Mas você já tem uma filha, ou não?
ANGÉLICA – Tenho um filho. O Felipe. Mas ele é meu filho e do meu marido.
CARTOMANTE – Filho? Estranho... Não é isso que vejo nas cartas. 
ANGÉLICA – As cartas estão dizendo que o Lipe não é filho do Osvaldo, meu marido? 
CARTOMANTE – Pelas cartas, sem chance. O seu filho é filho de outro homem. E é uma filha.
ANGÉLICA – Não é possível! O meu amante é estéril.  
CARTOMANTE – Então, sua filha é filha do Espírito Santo. 
ANGÉLICA – Não. Ele é filho do meu marido. E eu não tenho filha, já disse.
CARTOMANTE – Impossível. Está nas cartas. E elas não mentem. Você não pulou a cerca?
ANGÉLICA – Pulo a cerca há anos, mas sempre pro mesmo quintal. 
CARTOMANTE – Bom, se não é do seu amante, não faço ideia de quem seja. De seu marido não é.
FELIPE ENTRA.
FELIPE – Eu posso explicar tudo, mamãe.
ANGÉLICA – Felipe, filho. O que você faz aqui?
FELIPE – Eu sei de quem eu sou filho, mamãe. 
CARTOMANTE – Você é o filho dela?
FELIPE – Sou sim, Madame Zoraide. 
CARTOMANTE – Mas você foi adotado. 
ANGÉLICA – Adotado?
FELIPE – Adotado, mamãe.
ANGÉLICA – Por quem, meu Deus? Que história é essa?
FELIPE – Fui adotado por papai.  
ANGÉLICA – Que loucura é essa, Lipe? 
FELIPE – Não é loucura, mamãe. Aliás, você não é minha mãe. 
ANGÉLICA – Deixe de maluquice! Você já conhecia Madame Zoraide?
CARTOMANTE – Ele veio aqui semana passada. 
FELIPE – Fui eu que lhe dei o contato dela, mamãe. 
ANGÉLICA – Não lembro...
CARTOMANTE - Ah, essa é a sua mãe que sofre de perda de memória...
FELIPE – É ela sim, Madame Zoraide. A memória dela só vai até a semana anterior. 
CARTOMANTE – Que triste. Eu entendo bem o que é isso...
FELIPE – Eu sei.
ANGÉLICA – Minha memória o quê? Vocês podem me explicar o que está acontecendo aqui?
FELIPE – Mamãe, a senhora sofreu um acidente há muitos anos e perdeu a memória recente. Toda semana, a gente tem que explicar pra senhora quem a senhora é e quem somos nós. Já faço isso há muitos anos.
ANGÉLICA – Então, você sabia que era adotado? 
FELIPE – Sempre soube. E foi isso que me fez acreditar no poder da Madame Zoraide. Ela me falou isso assim que me viu. 
ANGÉLICA – E o Osvaldo, meu Deus! Ele sabe disso?
FELIPE – Sabe sim, mamãe. Ele me confessou tudo. Ele e o Geraldo me contaram.
ANGÉLICA – O Osvaldo conhece o Geraldo? Meu Deus, estou perdida. Eles já sabem de tudo, então?
FELIPE – De que a senhora é amante do Geraldo?
ANGÉLICA – Você também sabe?
FELIPE – Sei sim, mamãe. E também sei que isso é mentira. 
ANGÉLICA – Mentira? Ah, claro que o Geraldo desmentiria essa história. Ele não é homem pra assumir.
FELIPE – Pelo contrário, mamãe. Ele é homem pra assumir sim. Ele assumiu tudo. Só que a senhora nunca foi amante dele.
ANGÉLICA – Claro que fui. Claro que sou. Eu amo o Geraldo. 
FELIPE – E ele ama meu pai. Você e o Geraldo são apenas amigos.
CARTOMANTE – O valete duplo na sua vida, rapaz! Sabia que tinha babado nessa história.
FELIPE – Foi por causa da descoberta do caso deles que a senhora sofreu o acidente que lhe afetou a memória. Daí a senhora distorceu tudo e passou a achar que eu era seu filho e que o Geraldo era seu amante, quando na verdade ele é amante do meu pai. 
ANGÉLICA – Isso não é possível.
FELIPE – A senhora diz isso toda semana, já tou acostumado. 
ANGÉLICA – Então, você não tem mãe? 
FELIPE – Sempre gostei da senhora como de uma mãe. Mas queria descobrir quem era minha mãe de verdade, por isso vim aqui em Madame Zoraide. 
ANGÉLICA – E ela lhe disse quem é sua mãe?
FELIPE – Não. Isso ela não soube dizer. Mas eu vim aqui já sabendo quem era, só precisava da confirmação. Foram anos de investigação. Graças ao Facebook, encontrei a Ritinha.
CARTOMANTE – Minha filha?
ENTRA RITINHA.
RITINHA – Sim, mamãe. 
CARTOMANTE – E o que a Ritinha tem a ver com isso?
FELIPE – O acidente que minha mãe sofreu foi por causa da senhora, Madame Zoraide.
CARTOMANTE – Como é?
RITINHA – Ela atropelou a senhora, mamãe. E vocês duas perderam a memória. 
CARTOMANTE – Isso eu sei. Então, foi ela? Minha memória só vai até o dia do acidente, nada mais que isso... Meu passado remoto é um mistério.
RITINHA – A senhora foi atropelada no dia que tinha descoberto o paradeiro do seu filho.
CARTOMANTE – Eu tenho um filho? Que história é essa, Rita? Só tenho você.
RITINHA – Não, mamãe. A senhora teve outro filho, que deu pra a adoção há muitos anos. Antes do acidente, a senhora vivia em busca dele. E tinha descoberto o paradeiro dele naquele dia fatídico.
CARTOMANTE – Você está querendo dizer que...
FELIPE – Que eu sou seu filho, Madame Zoraide!
ANGÉLICA – Não! Isso não é possível!!
FELIPE ABRAÇA A CARTOMANTE, QUE FICA PERPLEXA. ANGÉLICA PÕE A MÃO NA CABEÇA, PARECE SENTIR DOR.
 CARTOMANTE  - Eu tenho dois filhos, meu Deus!
RITINHA – Não, mamãe. Só tem um. Eu não sou sua filha!
FELIPE E CARTOMANTE  – O quê?
RITINHA – Eu fui adotada pela senhora para suprir a falta do seu filho verdadeiro. Também tenho investigado a minha vida inteira. E por essas coincidências que só acontecem em novela, a minha verdadeira mãe é... dona Angélica.
FELIPE E CARTOMANTE – Não!
RITINHA – E tudo o que eu queria saber era por que ela me abandonou quando nasci? E quem é meu pai?
TODOS OLHAM PARA ANGÉLICA.
ANGÉLICA – O que estou fazendo aqui? Que lugar é esse? Quem são vocês?

FIM.




segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Terceira noite do Clube da Cena Redes Sociais

E a terceira semana do Clube da Cena Redes Sociais foi assim:


  1. COM OU SEM?, de César Amorim  – Post Dou para Qualquer homem que saiba usar a Crase. Com Cristina Fagundes e Alex Nader  – Direção Fernando Melvin 



  1. DONA NADIR, de Cristina Fagundes – Post Se alguém faz um Mal a mim, desejo fervorosamente que se apaixone perdidamente
          Com Ana Paula Novellino, Bia Guedes e Jorge Neves  – Direção Andy Gercker 



  1. A TRAIÇÃO, de Ivan Fernandes  – Post Eu gosto mais qd ela fuma, gosto mais qnd ela bebe, gosto mais qndo ela vem toda nua, gosto mais de dela sem censura.
              Com Zé Guilherme Guimarães e Mariana Consoli – Direção Bruno Bacelar



  1. MILAGRES NÃO EXISTEM, de Bruno Bacelar  – Post Alguém quer ser meu guru alternativo bem louco?
Com Marcelo Lima e Mariana Costa Pinto  – Direção Leo Castro




  1. COLÓQUIO SOBRE A TIMIDEZ, de Diego Molina  – Post Quando falo com Meninas demasiado bonitas fico até gago.
              Com Marcello Gonçalves e Marcella Leal  – Direção Carmen Frenzel




  1. PARTO PRA CIMA, de Paula Rocha – Post Esther a caminho... No hospital.
Com Rita Fischer, João Velho e Bruno Bacelar  – Direção Vini Messias

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Nossos Músicos:



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E as cenas mais votadas pelo público foram:

Primeiro Lugar: Dona nadir


Dona Nadir - de Cristina Fagundes. 

Um rapaz de 20 anos, uma mulher e uma idosa sentados à mesa.  Bebem.  A idosa bebe suco de canudinho. Faz barulho. A mulher a observa. Tempo. 
MULHER  –  Mas há quanto tempo vocês estão... estão se relacionando Dona Nadir?
Silencio.
MULHER – Dona Nadir? 
Nadir sugando canudinho.
MULHER –  Dona Nadir, há quanto tempo a senhora e o Junior estão namorando?
Nada.
JUNIOR – Mamãe.  Você tem que falar alto.
MULHER – (alto) Dona Nadir, a senhora tá namorando com o meu filho há quanto tempo?
IDOSA –  Invento o quê? 
JUNIOR – ah, perái, deve tá desligado.  (liga aparelho de surdez de Nadir).  Pronto. Acho que agora foi. 
MULHER –  (alto) Eu to querendo saber, há quanto tempo a senhora está namorando com ele.  Há quanto tempo??
IDOSA – Não precisa gritar. Já ouvi.
MULHER – Desculpa.
IDOSA – Namorando?
MULHER – Bom, ele me falou que vocês estavam namorando.  Era uma brincadeira Júnior?
IDOSA – Namorando, 3 meses.  Que antes a gente só tava ficando, né Junior?  
MULHER – Você tava... tava ficando com essa senhora, Júnior?  
JUNIOR – Tava mamãe.  Mas isso foi antes deu me apaixonar.  Agora é namoro mesmo.  
MULHER –  (tentando ser compreensiva) Sei. Namoro. Ah tá. Desculpa, é que eu fui pega meio de surpresa.  Escuta, meu filho, mas você não tava namorando aquela menina da academia?
JUNIOR –  Tava. Mas não tinha nada a ver não mãe.
MULHER –  mas era uma menina tão bonita. Acabou?
JUNIOR – Acabou mãe.
MULHER – Ela parecia uma indiazinha. Uma graça a menina. Qual era mesmo o nome dela? 
IDOSA – Flavinha.
MULHER – Ah, a senhora conhece?
IDOSA – é a minha neta. A Flavinha.
MULHER – Sua neta?
JUNIOR – É mamãe.  Eu conheci a Dona Nadir no aniversário de 17 anos da Flavinha. Na confeitaria Colombo. 
IDOSA –  Copacabana.  Uma beleza aquela vista... 
MULHER – Junior você tá namorando a avó da Flavinha?
IDOSA – Mas aquela festa foi um estouro! Não foi? 
JUNIOR – Então mamãe.  Não é só um namoro. Eu to apaixonado.  A gente vai morar junto mãe. 
MULHER (pra ele) Me dá um cópo d´água. (bebe) A gente quem?
JUNIOR – A gente vai se casar mamãe. 
MULHER – Quem?
JUNIOR – Eu e a dona Nadir. 
IDOSA – A gente tem muita pele.
MULHER – Muita o quê?
IDOSA – Muita química, eu e o Júnior. Não é Júnior?
JUNIOR – É gatinha.  
IDOSA – Uma brasa esse garoto. 
MULHER – ...
IDOSA – Aí eu quis te conhecer antes. 
MULHER – (rápida) Antes de quê? De morrer? Ai.  Desculpa.  Brincadeira.   Mas é que a senhora já tem uma certa idade né?  Aliás, desculpa eu perguntar mas quantos anos a senhora tem?
IDOSA – 85. E vc?
MULHER – Eu?
IDOSA – é.
MULHER – Eu tenho 62. Por quê?
IDOSA – Só?
MULHER – como assim só?
IDOSA – Você tem que se cuidar.  Você tá... tá mal.  (pra junior) Né não?
MULHER – Do que que ela tá falando? 
JUNIOR – Mamãe.  Eu e a Dona Nadir viemos aqui porque nós vamos precisar da sua ajuda. 
MULHER – Meu filho, por que que você tá fazendo isso comigo?
JUNIOR – Isso o quê mamãe?
MULHER – O pessoal da sua academia sabe desse... desse namoro de vocês?
JUNIOR – sabe.  A dona Nadir é da galera.  Ela treina lá com a gente. 
IDOSA – Depois do meu jogging. 
MULHER – Você treina o quê?
IDOSA – Jiu jitsu. 
JUNIOR – Dona Nadir é faixa roxa. 
IDOSA -  Você devia praticar também, tá tão fraquinha. 
MULHER -  Sei.... E o que o pessoal do jiu jitsu tá achando desse namoro de vocês?
JUNIOR – Mamãe esse é um assunto meio chato.
MULHER – Ué, chato por quê? 
IDOSA – O Júnior brigou com o Marcão.  
JUNIOR – Não era para falar amor. 
IDOSA –  Por minha causa. 
MULHER – Eu imagino.  
JUNIOR –  Ele deu em cima da Dona Nadir.
IDOSA –  Foi. Ele me apertou no tatame. 
MULHER – Ele o quê? 
IDOSA –  É que uso um collant muito justo, sabe? 
JUNIOR – Já falei pra você não usar mais esse collant. Jiu jitsu se treina é de kimono gatinha. De kimono.
IDOSA – Ele implica com o meu collant, esse menino. Que coisa! 
MULHER –  Collant?  Escuta, a senhora não acha que você e um Júnior são um pouco... um pouco diferentes? 
IDOSA – Você fala assim em relação a ele não gostar do Roberto Carlos? 
JUNIOR – Mamãe, a gente vai ter um filho.
MULHER –   Quê? Como assim?
JUNIOR – Ter um filho mãe.  A gente vai formar a nossa própria família não é gatinha? 
IDOSA – É, broto.  
MULHER –  (tempo)  Desculpa, mas a senhora pretende ter filhos como Dona Nadir? Como?
JUNIOR – A gente vai fazer inseminação artificial.
MULHER – Nela?
IDOSA – Mas aí já pensou se vêm gêmeos?  Daí eu achei melhor conhecer a senhora.
MULHER –  Você.  Me chama de você.
IDOSA –  Que eu preciso saber se você vai dá conta, né? 
MULHER – Dá conta de quê? 
IDOSA – De cuidar das crianças ué.  Se  vierem duas.  Que criança é um rojão.  Imagina duas de uma vez? 
JUNIOR – A gente vai querer deixar as crianças com você de vez em quando, mamãe. A dona Nadir é muito ocupada. 
IDOSA – Eu não quero atrasar a minha vida profissional, sabe? 
JUNIOR – A dona Nadir precisa ter certeza de que vai poder contar com a senhora mãe.  
IDOSA  -  Não sei não, Júnior.  To achando ela já meio passada pra ser avó.  
MULHER – Eu ouvi.  
IDOSA – Então. Eu to achando melhor a gente deixar as crianças com a minha mãe. 
MULHER – Você ainda tem mãe?
JUNIOR  – A mãe da Dona Nadir é engenheira de computação.  Ela mora lá no vale do Silício.  
MULHER –  Ela é o quê?     
JUNIOR -   Ela desenvolve novos programas pra Apple. 
IDOSA - E eu to me formando ano que vem.  Cirurgiã Oftalmo.  Eu quero operar catarata.  Que tá cheio de menina aí de 70 e já cheia de catarata.  Vou ganhar uma soma. 
JUNIOR – A gente vai precisar da sua ajuda pra cuidar das crianças.   
MULHER –  Ai, eu não to bem.   (senta) 
IDOSA – Olha Júnior, não sei não.... Ela é muito desmilinguida, olha aí. 
JUNIOR – Mas meu amor...   
IDOSA –   Pra ser avó tem que ter energia, sabe?  Acho melhor a gente adiar um pouco esse nosso projeto. Pelo menos até eu me formar. 
JUNIOR – Mas Dona Nadir...
IDOSA – A gente tem que ser responsável Júnior.  Pra ter filho é preciso toda uma estrutura por trás.  Eu não acho que a sua mãe vai dar conta.
MULHER – Água meu filho. Me dá água! Anda! 
IDOSA –   Olha aí, num falei?  Bom, eu já vou broto, que tá na hora do meu cassino.
JUNIOR – Mas Dona Na/
IDOSA -  Depois a gente conversa.   (pra mulher) Melhoras, viu? A senhora devia fazer um boxe, um karatê.  Toma um leite.  (pra junior) Já vou. (beija-o) Gostoso! (sai)  
JUNIOR – (dá copo) Poxa, mamãe. 
Fim 


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Segundo lugar: Com ou sem?


Com ou sem? - de César Amorim

NO RESTAURANTE...
AMANDA (ao telefone) – Tou esperando ele, amiga. Adorei a sugestão do lugar. Nenhuma mulher hétero à vista. Perfeito. Das últimas vezes só me dei mal. Tou na secura há meses. Dessa vez, vai. Beijo. 
GARÇON – Com licença. A senhora já quer fazer o seu pedido?
AMANDA – Não, querido. Estou esperando uma pessoa. Pessoa que digo é um homem, tá? Pra você não pensar que falei pessoa só pra não dizer que é outra pessoa do mesmo sexo, afinal aqui é um bar gay.  Marquei aqui porque sei que não terei concorrência. Ele é hetero e tal.  Aprendi isso com uma amiga lésbica. É um encontro, sabe? Nosso primeiro.  
GARÇON – Que bom. Vou deixar o cardápio com a senhora e assim que seu companheiro chegar eu volto. Fique à vontade.
AMANDA - Pode deixar, vou ficar à vontade. Com crase e tudo. 
GARÇON SAI. HUGO, UM HOMEM BONITO, ENTRA.
HUGO – Amanda?
AMANDA – Hugo! Que maravilha!
HUGO – Achei que fosse chegar antes que você.
AMANDA – É que vim fazer umas compras e tava aqui perto e resolvi ficar e tal. Veja bem, não tou ansiosa, de maneira alguma. Mas, parabéns, você foi pontualíssimo. Adorei.
HUGO – Eu “naisci” pontual.
AMANDA – Oi? O que você disse?
HUGO – Que “naisci” pontual. É de “naiscimento”.
AMANDA – Ah, tá! Uma piada. Tá imitando alguém que fala assim. 
HUGO – Assim como?
AMANDA – Deixa pra lá. Entendi. Sério. Foi engraçado. 
HUGO – Não conhecia esse “restorante”. É novo?
AMANDA – Esse o quê?
HUGO – “Restorante”. Esse lugar aqui.
AMANDA – Não, não é novo. Também não conhecia. Foi uma amiga quem indicou. Me diz uma coisa: você é o Hugo mesmo? Aquele que conversava comigo no Skype e tal?
HUGO – Ué? Tá me “instranhano”. Num tá vendo não? Igualzinho que nem na foto lá. Que nem na cam.
AMANDA – Pela foto e pela cam é você sim. É que não conversamos com áudio, né? Você só escrevia. E escrevia tão bem. 
HUGO – É verdade. Você “inté” que me “ilugiou”.
AMANDA – Você tá meio diferente pessoalmente. Falando estranho... É brincadeira, né?
HUGO – Não, eu falo assim mesmo. Num gostou da minha voz? 
AMANDA – Não. Você tem um timbre bonito. É que lá você falava tanta coisa legal. Tou só estranhando. Pensei que você ia me falar aquelas coisas lindas que você escrevia.
HUGO – Ah, aquilo tudo é “control C”, “control V”. 
AMANDA – Oi?
HUGO – Copia e cola. É tudo do Google. Num sei falar aquelas coisas bonitas não. 
AMANDA – Quer dizer que você me enganou?
HUGO – Não! Tudo o que eu falei lá era o que eu queria falar pra você, mas não ia ficar tão bonito com minhas “palavra”, entende? 
AMANDA – Que decepção, meu Deus. Mais uma.
HUGO – O que foi que fiz, gata?
AMANDA – Nada. Aí é que está. Você não fez nada. E isso é tudo. Você é todo errado. 
HUGO SE LEVANTA.
HUGO – Foi mal. Vou nessa.
AMANDA – Espera. Você é um gato. Que desperdício. Faz o seguinte: me diz uma coisa, só uma e posso perdoar tudo o que você falou até agora. 
HUGO – Manda.
AMANDA – Basta responder isso e eu perdoo tudo e a gente sai direto daqui pra um motel. Topa?
HUGO – Gata, tá brincando? Só tou aqui pra te levar pro motel. E olha que a grana tá curta. 
AMANDA – Eu pago tudo. Se você acertar, pago tudo. Me diz. Na frase “eu vou à praia” tem ou não tem crase?
HUGO – “Crasse”? Olha, depende da praia, né? Se for em Ramos, por exemplo, não tem “crasse” nenhuma. Agora, se for no Leblon já é outra história. Lá é “crasse” alta, né?
AMANDA – Crase! C-R-A-S-E! Não falei classe! Por favor, levante-se dessa mesa e vá embora. Você é uma fraude!
ENTRA O GARÇON.
GARÇON – Já querem fazer o pedido?
AMANDA – Eu quero! Esse senhor não! Ele já está de saída. 
HUGO – Você é maluca, gata! Maluquinha! Vai se tratar! Uma pena. Te gostei de verdade, sabia?
AMANDA – Vai à merda! Com crase e tudo!
HUGO SAI.
GARÇON  (constrangido) – Quando precisar de mim...
AMANDA – Eu preciso. Desculpe. Ele definitivamente era a pessoa errada. Deixa eu olhar o cardápio... Nossa. Tudo tão bem escrito. Raro ver um cardápio assim. Sem nenhum erro de português. Dê os parabéns ao dono do restaurante por mim. 
GARÇON – Quem agradece sou eu, senhora. Eu mesmo escrevi o cardápio. Já fui professor de português.
AMANDA – Não brinca! Você?
GARÇON – Sim. Trabalhava em Minas, ganhava uma miséria, daí vim pro Rio, fiz um curso no Senac de garçon e tou aqui agora. Ainda faço tradução e tou escrevendo um livro.
AMANDA – Olha, me deu até um calor, sabia?
GARÇON – Oi?
AMANDA – Senta um pouquinho comigo.
GARÇON – Não devo fazer isso...
AMANDA – Ah, o restaurante tá praticamente vazio. Só um minutinho. Queria te pedir uma coisa.
GARÇON SENTA.
AMANDA – Você tem papel e lápis, né? Então, queria que você escrevesse uma coisinha pra mim. 
GARÇON – Sim, senhora.
AMANDA – “Eu vou à praia”.  
GARÇON – Eu vou à praia?
AMANDA – Isso. Escreve. E escreve também “eu vou a Roma”.
GARÇON – Ok. Prontinho.
AMANDA – Deixa ver. Certíssimo. Por que você vai à praia com crase e a Roma sem?
GARÇON – Porque o verbo “ir” exige a preposição “a”e a palavra “praia” exige o artigo “a”. Na junção das duas, ocorre a crase. Já na segunda frase, a palavra “Roma” não exige artigo, então o “a” é só preposição, não tem crase. Entendeu?
AMANDA – Eu tive um micro orgasmo agora. 
GARÇON - Perdão?
AMANDA - Você é casado?
GARÇON – Não. 
AMANDA – Delícia. Tá carente?
GARÇON – Um pouco.
AMANDA – Eu também. Rola alguma coisa comigo?
GARÇON – Desculpe. Comigo só rôla.
AMANDA – O quê?
GARÇON – Rôla. Pau. Cacete. Pênis. Entendeu? Sou gay, mona.
AMANDA – Quer saber? Foda-se a crase. Foda-se o português. Tou precisando de um homem, no sentido macho da palavra. Com licença.
AMANDA FICA DE PÉ.
AMANDA – Hugo!! Se você ficar caladinho, a gente transa!! Eu me dou a você. Sem crase!!
E SAI CORRENDO.

FIM